20 maio 2013

Uma mala totalmente falível



Estava dormindo no pouquíssimo espaço que me é destinado no ônibus. No melhor do sono o guia me acorda, em alto e bom portunhol. Não movo o tapa olhos na esperança de que ele me esqueça, ou quem sabe pense que eu morri, ou numa hipótese bem pretensiosa que eu não gostaria de ser perturbada. Daí ele chega bem perto, pois mesmo com protetores de ouvido eu o ouvia bem alto dizer que TODOS DEVEM DESCER PORQUE O ÔNIBUS VAI DAR UMA VOLTA E VIRÁ NOS BUSCAR EM DUAS HORAS. Ai, duas horas? Era tudo que eu precisava para terminar de dormir e conseguir atingir o meu nível básico de humor.
Já estávamos em Brugges com muito frio e chuva. Vestia uma roupa de correr: calça, blusa de manga e tênis, o que seria ótimo se eu pudesse sair correndo para me aquecer. Mas não, corremos todos sim foi para uma lojinha em frente para comprar uma capa de chuva. A minha era verde tom de saco de lixo e só se distinguia de um pelos três buracos a mais.
Quando a coloquei por cima da mochila ganhei uma enorme corcunda, aquilo destoava com a calça colada e o tênis meio laranja, meio rosa fluorescente de tal forma que a minha mãe disse em tom simpático que nunca tinha me visto tão feia na vida.
Assim passeei em Brugges com a meta de em duas horas comer alguma coisa, apreciar a linda cidade e tirar algumas fotos, comprar uma blusa que me aquecesse e uns chocolatezinhos belgas para os meus filhos.
Fiz tudinho, achei os chocolates cremosos maravilhosos em formato de sapatinho de princesa, de bichos, de moedas de euros. Consegui achar um café em que eu era a única cliente e ter bastante atenção. Não precisei andar muito para tirar fotos lindas e ter certeza que queria voltar àquela cidade. E fora a minha mãe e algumas coleguinhas da excursão ninguém riu ou me olhou esquisito. Acho que na verdade ninguém está nem aí para a roupa de ninguém.
Mesmo assim eu me importo. Adoro roupas e me visto pra mim. E uniformes de turistas tipo roupas sintéticas e pochetes me dão alergia. A bolsa a tira colos com a logomarca enorme da empresa de turismo que eles me deram ficou disfarçadamente guardada no ônibus, para não aumentar o lixo do planeta.
Me disseram para trazer um casaco só e no terceiro dia já não aguentava mais olhar para ele. Procurei saber do clima e ouvi que na primavera a temperatura oscila muito, é a tal demi season, ou meia estação, um terror na hora de fazer a mala. Temos que trazer um pouco de tudo pois só podemos carregar uma mala no ônibus. Este é o problema, fora Madri só fez frio até agora e o meu pouco de roupas quentes já foi embora faz tempo.
E não quero comprar roupas de inverno porque eu as tenho, as que eu adoro, ai que saudade! Mesmo assim inconformada entrei em uma loja e depois de muito procurar encontrei uma jaqueta preta ajustada bonitinha. Acho que aquela era a última de toda a Europa, pois por todos os lugares que passei, em todas as vitrines, só se vê roupas florais e esvoaçantes, vestidos curtos e sandálias, tudo bem colorido para o verão.

O jeito é usar a criatividade, comecei a atacar a mala da mãe. Mesmo saindo com as calças mais curtas e com o cós lá em cima quase no estômago e os casacos mais folgados, pelo menos estou variando. Porque já que tenho que voltar para o mesmo ônibus, para ver as mesmas pessoas, e ver a mesma IF no espelho todos os dias, que pelo menos eu brinde os novos lugares com roupinhas diferentes, as fotografias agradecem.

Um comentário:

  1. Francamente, penso que você é o que há de mais AUTÊNTICO, DIVERTIDO e NOVO nessa excursão.

    Há braços

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