28 maio 2013

Nem às paredes confesso!


Alguém aqui deve ter me visto dizer que para shows típicos eu não iria de jeito nenhum, nem amarrada. Pois é, fui. Viagem chegando ao final, confraternização dos coleguinhas da excursão, carinha de pidona da mamãe, foi o jeito. Fomos à assistir à um Fado no Forcado, um restaurante típico no Bairro Alto em Lisboa. E eu adorei.

O Fado é a música da saudade dos portugueses, esta palavra que não tem tradução em outras línguas. São as músicas que expressam o lado sonhador, nostálgico e a ânsia melancólica por algo perdido ou inatingível. Tem como principal ícone a Amália Rodrigues, atriz e cantora portuguesa que nasceu em 1920 e morreu em 1999 e que popularizou o Fado pelo mundo.

Trouxe uma palhinha. Começando pela nostálgica Lisboa Antiga, imortalizada pela Amália Rodrigues:

Lisboa, velha cidade,
Cheia de encanto e beleza.
Sempre a sorrir tão formosa,
E no vestir sempre airosa.
O branco véu da saudade
Cobre o teu rosto linda princesa.

Olhai, senhores, esta Lisboa d'outras eras,
Dos cinco réis, das esperas e das toiradas, reais!
Das festas, das seculares procissões,
Dos populares pregões matinais,
Que já não voltam mais.

Agora deixa eu avisar para quem está pensando em vir, o Fado é totalmente contra indicado para quem está sofrendo de dor de cotovelo. Com risco de afogamento em vinho português. Eu por um triz não chorei, ela fazia cara de dor e eu entendia, quase saí para comprar um xale preto todo bordado para me enrolar. Olha para essa, chama-se "Sem razão":

Meu amor, não me perguntes o motivo
Da paixão que me tortura
A verdadeira paixão não tem razão,
Nem se procura
É desgosto a felicidade que cheguei
A qualquer altura.


Por que gostei de ti, não sei!
Pois nada fiz pra que te queira!
Se o amor se perdeu,
Que culpa tenho eu
De querer-te desta maneira?


Dizem que ninguém pode ser fadista antes dos quarenta. Que é preciso sofrer para ser fadista de verdade. Então mais Amália, "Lágrima", essa é para passar por cima de quem já está no chão:

De querer-te desta maneira?
Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havia de chorar
Por uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar.

De arrombar não é? Sorte que tinha umas alegrinhas também para fazer a pessoa respirar, esta todos cantavam batendo palmas, chama-se "Uma casa portuguesa":

Quatro paredes caiadas
Um cheirinho a alecrim
Um cacho de uvas doiradas
Duas rosas num jardim
Um S.José de azulejos
Mais o sol da primavera
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa com certeza!
É com certeza,uma casa portuguesa!


Essa é do Tony de Matos, "Só nós dois é que sabemos", e a minha mãe também sabia a letra e cantou sem parar:

Só nós dois é que sabemos
Quanto nos queremos bem
Só nós dois é que sabemos
Só nós dois e mais ninguém
Só nós dois avaliamos
Este amor forte e profundo
Quando o amor acontece
Não pede licença ao mundo

Anda, abraça-me... beija-me
Encosta o teu peito ao meu
Esquece que vais na rua
Vem ser minha e eu serei teu
Que falem não nos interessa
O mundo não nos importa
O nosso mundo começa
Cá dentro da nossa porta


Ter cultura musical é o máximo e aqui está um prato cheio para degustação, pura provocação para uma viagem na internet para lembrar ou conhecer estes clássicos portugueses. Eu adorei ter sido apresentada à Amália e à Lisboa, conhecer e me reconhecer neste povo tão ligado a nós. Ouvir músicas de coração partido da linguagem universal do amor. Vou fechar com esta, "Nem às paredes confesso", que foi tema da novela "Antônio Maria", de 1968 que a minha avó adorava. Tão atual, falava do coração da minha avó, da minha mãe e fala do meu agora:

Não queiras gostar de mim 
Sem que eu te peça 
Nem me dês nada que ao fim 
Eu não mereça 
Vê se me deitas depois 
Culpas no rosto 
Isto é sincero 
Por que não quero dar-te um desgosto 

De quem eu gosto 
Nem às paredes confesso 
E até aposto 
Que não gosto de ninguém 
Podes sorrir, podes mentir, podes chorar também 
De quem eu gosto 
Nem às paredes confesso.

Quem sabe se te esqueci
Ou se te quero
Quem sabe até se é por ti
Por quem eu espero
Se gosto ou não afinal
Isso é comigo
Mesmo que penses que me convences
Nada te digo.


27 maio 2013

Paciência de guia


Nesta viagem conheci mais uma categoria de profissionais pelos quais virei fã para sempre. Os guias turísticos. Nesta excursão ficou provado que eles todos merecem uma suíte presidencial em hotéis cinco estrelas no céu com spa e pensão completa.
O grupo que eu viajei foi pequeno, doze pessoas, o que não era suficiente para ter um guia exclusivo. – Só vai ter guia exclusivo se fecharmos um grupo de vinte pessoas - deixaram bem claro. Mas a confusão foi tanta, de tanta gente querendo o dinheiro de volta, que eles mandaram para nós, e só nós tínhamos, um anjo carioca chamado Maria José.
Zezé é guia de grupos de adultos, crianças e adolescentes há vinte anos. Fora ela, em cada cidade tinha um guia local e muitas vezes dois, tinha também o local do local. Portanto, tive contato com uns quinze deles pelo menos. E com a proximidade que estávamos, e com a quantidade de tempo que passamos juntos, não tinha como não analisar profundamente a relação deles com os seus queridos passageiros.
Vamos lá, uma guia tem que acordar mais cedo que todo mundo, preparar uma voz boa e ligar para o quarto de todos uma hora antes da saída do grupo. Ela liga e repete o que foi dito pelo menos cinco vezes na noite anterior, fala de novo qual é a hora do café, a hora de descer com a mala e a hora de entrar no ônibus. Ela avisa se está chovendo, se está frio, se não pode vestir bermuda porque vai entrar em uma igreja. Ela te lembra de pegar o ingresso, ela manda beijo, tudo numa voz ótima em um horário de média de 5:30 da manhã.
Uma guia vive te contando. Ela conta o seu grupo no café, no ônibus, no metrô, em toda mudança de sala de um museu. Uma guia te avisa dos degraus para que você não se estrebuche no chão, não caia no mar, não seja atropelada por um carro, um cavalo ou uma bicicleta. Uma guia faz o check-in de todo mundo, se deixar ela quer te ajudar a carregar a sua mala, a sua mochila, ela carrega a sua vida.
Uma guia tira fotos suas, é a única no grupo que se oferece para fazer isso. Já disse que uma guia repete tudo muitas vezes? Pois ela repete, fala no microfone do ônibus, depois fala do auricular que mesmo que só contenha três botões, on/off, mais volume e menos volume, ela tem que sair colocando um por um para funcionar. E depois de ter terminado de dar o aviso, exatamente dezesseis segundos depois, vem alguém e pergunta a mesma coisa.
Ai, agora o que dói mesmo são as perguntas. Preparados?? Respirem.
- Zezé, como é mesmo esse negócio de gôndola? É que a minha mulher tem medo de altura...
- A gente vai chegar que horas na Torre de Pizza?
- Nesse hotel que a gente vai tem hi fi??
- E por que é mesmo que esses artistas (escultores gregos) faziam as esculturas sem cabeça ou braços, todas assim amputadas??
- Zezé, vocês vão levar a gente para tirar foto no túmulo da Julieta???
Eu queria me desintegrar rapidamente, eu sou assim, morro de vergonha pelos outros, chego a sentir dor na barriga. Nada no mundo irá me fazer entender a razão da admiração dos turistas pela banheira do Nero, a cueca do Napoleão e o bidé da Maria Antonieta. 
Guia tem que dar aula de história, de geografia, de cultura local, tem que saber curiosidades, fofocas e piadas, tem que ser enfermeira, tem que entreter, animar, acalmar, depende do ponto em que está.
Ela me contou que esse negócio de dividir quarto com quem não conhece dá um problema danado, muita gente faz isso, paga um preço caríssimo para pagar barato. Ela já teve que apartar duas que quase caíram nos tapas. Disse de outra que ia dormir na banheira toda noite porque a colega de quarto roncava muito.
Imagine administrar tudo isso? Imagine um grupo de cinquenta meninos de quatorze a dezesseis anos em um avião, todos acendendo a luz para chamar a comissária, como um dominó, um por um? Ela disse que tinha que fazer cara séria mas sentia um impulso incontrolável de rir, ai que dureza. Um guia tem que segurar o tempo inteiro uma bandeira, uma sombrinha com a haste esticada, ou uma mãozinha que faz barulho, um lenço ou uma antena com variações, vi até uma com um pikachu grudado na ponta. Tudo para chamar atenção para que nenhuma ovelha do seu rebanho saia da rota.
E na hora que começam a berrar, quer dizer, reclamar? Pobre Zezé. A banheira de um que vazou, o pé do outro inchou, um está passando mal no barco, um achou aquela comida muito ruim e o outro achou muito cara. Outro dia que ela avisou umas sete vezes, (já falei que guia que é guia tem que repetir?), espirituosa: Olha, esse hotel que nós vamos é longe de tudo e perto de nada... E o ônibus nem tinha terminado de frear que  uma metade do grupo perguntava se era longe enquanto a outra metade reclamava que era longe.
Eu usei protetores de ouvidos, de olhos, de costas, de nervos, de tudo. Se não fosse o ipod e esse computador não estaria aqui para contar a historinha da paciência da Zezé, minha ídola.

Em sua homenagem a partir de agora vou mudar o sujeito da expressão “paciência de Jó” para paciência de guia, porque mesmo que eu não tenha a menor ideia do que Jó fez para merecer esta referência, imagino que guia ele não foi e muito menos conheceu a nossa anja Zezé.



26 maio 2013

Vocês aqui em mim.

As viagens nos encantam tanto pelo que elas nos trazem de novo como pela oportunidade de percebermos o que temos de mais valoroso em casa. Nos possibilita enxergar o que construímos e que dão o sentido para voltarmos. Trata-se de uma ausência calculada, uma breve chance de termos uma nova vida com garantia de voltarmos para a nossa terra e para quem amamos.

Imaginei se fosse possível ter tudo, o céu azul de Salvador em 95% dos dias do ano. A variedade e o sabor da nossa comida que é incomparável, e principalmente as pessoas que nos são queridas nos lugares maravilhosos por onde estou passando.

Desejei muito os meus filhos em toda a viagem para aprendermos mais de história, geografia, ciências políticas, filosofia e tantas outras coisas juntos.

Imaginei que maravilhoso seria ter a companhia do meu amigo Eliezer, que faz aniversário hoje, pelos museus, de explorar o seu conhecimento de arquitetura e sua sensibilidade de artista para chegar mais perto da dimensão que estas obra têm. Se viessem a Tina e a Nicinha então, poderíamos formar uma comissão baiana espetacular incrível e falível de apreciadores da arte universal.

Adoro ter uma família de experiência internacional. Em Paris adoraria tomar vinhos e champanhes com a Simone, uma prima pra lá de charmosa que morou na França, casou com um francês, é mãe do francesinho mais lindo que já vi e é uma companhia super.

Na Itália só me vinha na cabeça a Isa, outra prima, que certa vez não resistiu ao chame de um italiano ou da Itália, não sei ao certo, e passou uns três anos por aqui. Gostaria de aproveitar o seu italiano fluente e o seu sorriso lindo para abrirmos muitas portas romanas, toscanas e sicilianas.

Para abandonar o ônibus da excursão, alugar um carro e cair na estrada desejei materializar o meu irmão e sua linda namorada Lia, que além de ser uma companhia agradabilíssima ainda entende tudo sobre roupas e me dá a maior assessoria.

Para fazer as considerações sobre a condição humana e de como as tudo aconteceu para chegarmos onde estamos sonhei com as presenças das tias Heleusa e Helena e das primas Verônica, Mônica e Diana.

Já para ver as vitrines queria a minha tia Heloisa. E seguindo para jantar com as suas filhas minhas irmãs Debbie, Sandy e Diddy. Ai que saudade!

Em Londres adoraria ver Ana Paula, em Frankfurt estar com Ana Emília e conhecer um pouco sobre a vida delas neste velho mundo. Não deu desta vez mas vai ficar para a próxima.

Foi só chegar na Itália, ouvir o sotaque e me lembrar do Edson, um italiano marido da Conça, um casal que eu adoro. Em Roma imaginei Fernanda morando aqui, quase pude vê-la em uma bicicleta ganhando as ruas da cidade. Pensei também no amigo português hoje quase um baiano, Paulo que cresceu na Italia e minha amiga TT, a sua mulher. Eles não puderam vir mas mandaram o seu amigo Massimo para me apresentar a cidade, e foi o máximo.

No Vaticano queria rezar com as católicas mais amadas do mundo: Helena, Dona Yolanda, Tia Dolores e Dona Darcy. Adoraria ver a carinha delas olhando para aquelas imagens e monumentos.

Em Madri adoraria estar em uma mesa com os compadres de descendência espanhola Fernando e Vielka e os amigos idem Leonardo, Tatiana, Luís e Tereza para vinhos, tortillas e paellas diretas da fonte. De lá poderíamos ir com o Núncio ver a Nágila dançar o flamenco, uau!

Em Firenze a melhor companhia do mundo seria as lindas Daniela e a sua irmã. E se trouxesse a Virna? Nossa, que maravilha.

Quando passei por alguns pontos ne Espanha e na França que levam ao caminho de Santiago me lembrei do Cau, que já o fez e poderia me contar mais um pouco e me ensinar um tanto como sempre faz sobre esta experiência.

Para sentar em um café, qualquer um que fosse, de qualquer esquina, para ver o povo passar e pensar alto na vida, sonhei com a minha amiga Help.

Para badalar na Praça de Trastevore em Roma, no Saint Michell em Paris ou no Picaddily em Londres senti muita falta das Beths, de Moema, Thays, Thatiana Jorginho, Marjore, Mônica, seus respectivos e muitos outros. Ah, se eu estivesse com eles não restaria pedra sobre pedra secular por aqui.

Para Veneza suspirei por voltar lá com um grande amor.

Para acompanhar a minha mãe no piano e no acordeon explodiria de felicidade se tivesse a Mel aqui, com sua linda voz o seu astral incomparável. E para saber mais sobre Mozart, Bethoven e os outros gênios da música clássica daqui do lugar de onde eles saíram adoraria a presença de tia Dulcinéia e Luciana.

Para conversar sobre os textos, trocar muitas idéias e pedir opinião imaginei que bom seria estar com Lourdinha, Claudinha e a Magaly.

Com Rafael queria sair correndo por aí, fazer um circuito europeu incrível!!

Senti a maior saudade do super trio Messias, Senna, e Soares, queria mostrar para eles a mão invertida do trânsito de Londres entre um milhão de outras coisas.

Adoraria mostrar os castelos de verdade e fazer programas de menininhas com Sarah, Nina, Stellinha, Julia, Milla, Nanda, Sofia e Yasmin.

Me lembrei do meu pai que não chegou a vir à Europa, como eu adoraria fazer esta viagem com ele. Lembrei de minhas tias Heliane e Dalci e de muita gente que nunca veio e talvez nunca possa vir aqui.

E pensei muito em vários outros que estão no meu coração, e desejei muito que todos tenham a oportunidade de vir aqui um dia.

Definitivamente viajar é despertar. Estar fora me chama a atenção tanto para o que eu não conhecia quanto para o conhecido. Me faz lembrar das pessoas  que tanto enriquecem a minha vida, que me tornam muito especial. Que me fazem saber que em qualquer lugar que eu esteja, por mais encantador que seja, sentirei uma vontade enorme de voltar.




Roma, un romano e una mamma brasiliana!

Quem tem amigos tem tudo. Um casal muito querido, Paulo e TT, pediram que um amigo deles, romano, me apresentasse a cidade no dia que cheguei. Ele se chama Massimo e a sua elegância e educação fazem jus ao seu nome. Conversamos em inglês, mas poderia optar por francês e espanhol.

Ele me levou para jantar no Ginger, um restaurante moderno e delicioso. Escolheu o vinho só para mim, ele não bebe. Pediu uma entrada com todas as variedades de presuntos, mortadelas, queijos e burratas, aquela mussarela de búfala que derrete por dentro, para que eu provasse tudo. Eu disse que queria uma massa e ele pediu a cacio e pepe, mas disse que eu não poderia ir embora sem provar a amatriciana e a a carbonara, as mais tradicionais. Sim senhor!

Não deixou eu encostar na bolsa, fez até cara de bravo, eu adorei. Eu estava  mesmo diante de uma espécie em extinção. Para a sobremesa ele não quis olhar o menu do restaurante e me levou para tomar sorvete na Piazza Navona, que tal? Íamos andando pelo centro da cidade iluminado tanto pelas luzes indiretas quanto pela luz da lua quase cheia, enquanto ele me dava uma aula de cultura e de história. Entramos em seu carro (eu até estranhei, achei lindo, tanto tempo sem entrar em um, rs) e rodamos por toda parte, para os lugares que só os romanos conhecem, para ver a cidade iluminada do alto junto do monumento de Giuseppe Garibaldi, era eu à meia noite em Roma, sem engarrafamentos nem turistas, com um guia só para mim!

E depois? Depois ele me deixou no hotel e fez questão de me acompanhar até o elevador. E só. O Massimo é casado (senão seria considerado relíquia, poderia até colocar em um museu para apreciação) e mesmo se não fosse, não daria jogo, não bateu.

Tanto que ele se colocou à disposição para os próximos dias que passarei aqui mas eu não aceitei, lógico, tem ofertas que são feitas por gente educada para que gente educada não aceite. Mal posso esperar para recebe-lo com a sua família no Brasil para retribuir a gentileza.

Nos dias seguintes voltei para a minha realidade, para a minha galera e para o meu ônibus. Fomos ao Museu do Vaticano, a Basílica São Pedro, o Coliseu, as piazzas e as fontanas todas. Roma, mais de dois mil anos de idade. Arcos e tetos que deram origem à arquitetura mais imponente que já vi. O dedo de Deus de Michelangelo na Capela Cistina ilustra perfeitamente a capacidade quase divina do homem em fazer a arte.

E no meio dos programas tem as fugidas, lógico. Destaco um momento com minha mãe e a Celia, uma amiga do grupo. Estávamos jantando em um restaurante no meio da Via Borgognona e passou um homem tocando um acordeom bem sem graça. Eu fiz uma oferta irrecusável e aluguei seu acordeon por cinco euros.

Entreguei-o para minha mãe que adorou a surpresa e conseguiu, com seu estilo, charme e entusiasmo dar vida ao instrumento. O dono da sanfona arregalou os olhos, as pessoas que passavam na rua pararam para olhar, as pessoas das outras mesas sorriram, os garçons e os clientes que estavam dentro do restaurante saíram para ver quem estava tocando.

E ela, que quase não gosta de platéia, nos presenteou com Fascinação, Que será será, que são conhecidas por todos, Asa Branca, em homenagem a nossa origem e Mais perto quero estar, um hino lindo para agradecer à Deus pela oportunidade.

E depois o devolveu, foi só uma palhinha. Durou poucos minutos mas o suficiente para ficar registrado para sempre. Mostrou sutilmente, através da linguagem universal da música, a sensibilidade e o bom gosto de uma mulher brasileira.

E assim aconteceu a minha primeira passagem por aqui. Entre caminhos programados e surpresas, como uma boa viagem tem que ser, dei início a minha história de amor com esta cidade. Na Fontana de Trevi tinha direito a fazer três pedidos. Então eu caprichei, pedi que eu possa voltar, que eu possa voltar e que eu possa voltar.




Florescendo com Firenze


A idade média durante os séculos XV e XVI foi também classificada como a "idade das trevas" na história da arte. As pessoas eram proibidas pela igreja católica de ler, escrever e pintar qualquer tema que não fosse o religioso e o não cumprimento destas leis poderia levar à morte. Neste período igrejas monumentais foram construídas. A arte sacra retratava com perfeição o sublime, o ideal do reino dos céus e o inferno para os que desobedecessem a igreja. Ora e labora, esse era o recado.
No século XVI a Itália viu o florescer das artes e foi em Florença que esse movimento, depois denominado renascimento, mais se desenvolveu. Com ele um novo pensamento, sentimento, filosofia, nova forma de enxergar a vida. O mundo da arte, com uma nova compreensão da perspectiva e da anatomia, produziu pintores e escultores como os gênios Leonardo da Vinci, Michelangelo, Donatello e Botticelli.
É um grande privilegio estar neste lugar que só conhecia através de livros e slides nas aulas de história da arte na faculdade. Não deu tempo de ver o que gostaria em Firenze, como é chamada aqui, a fila para entrar na Galleria dell’Accademia, onde está o David de Michelangelo passava de três quarteirões. Quando vamos com o grupo entramos antes de abrirem os portões e sem filas, mas o meu grupo não foi, no programa só havia compras, fazer o quê. É um excelente motivo para voltar.
Mas fomos ao Duomo e só de passear por ali já dá pra perceber a importância deste lugar na história. Eu que em minha vida tive algumas épocas medievais e alguns renascimentos. Com esta viagem estou vivendo mais um. Tudo que vejo e aprendo me faz sentir uma nova pessoa com outra perspectiva, tal qual os florentinos de mil quinhentos e lá vai.



25 maio 2013

A Veneza dos suspiros



Ao sair à noite por Veneza senti arrepios sem parar. Suspirava ao contemplar a arquitetura, as luzes, as pontes, a água por toda parte, brotando aqui e ali do chão. É muito mais do que eu esperava.
Nos restaurantes da praça São Marcos havia conjuntos com homens de paletó e gravata tocando piano, violino, violoncelo, flauta e acordeom,  tocando os boleros italianos, tangos clássicos. Como não suspirar ao ouvir Perfídia, O sole mio e Torna a Sarniento? À noite há muito menos turistas do que durante o dia, pois os hotéis, como tudo na cidade, são bem caros. Geralmente, as multidões de turistas visitam Veneza durante o dia e dormem nas cidades próximas. Isso dava mais encanto ao momento, parecia uma noite qualquer para os venezianos.
Alguns casais dançavam na rua. Suspirei de vontade de estar com meu amor. Gritei para todos os lados que voltaria ali muito bem acompanhada. A Veneza é um convite ao romance, com seus hotéis charmosos, suas gôndolas, as flores nas sacadas, a música, os bons vinhos e a boa comida.
No dia seguinte, tornei a fugir do grupo. Enquanto todos foram enfrentar uma fila enorme para serem fotografados em uma gôndola, eu fui ao Palazzo Ducale, o local onde foi a residência oficial dos governantes de Veneza, fundado no século IX.
Andei pelos diversos saguões do palácio enorme e imponente. A Sala del Maggior Consiglio, onde se reunia o conselho de Veneza, é o maior salão da época sem colunas, chegava a abrigar duas mil pessoas. O passeio pelo palácio termina na Ponte dos Suspiros e nas prisões.
A Ponte dos Suspiros foi construída para conectar o prédio do palácio onde aconteciam os julgamentos ao prédio da prisão. Nesta ponte tinha umas janelas com frestas de onde poderia se ver o mar. Deve seu nome aos suspiros dos condenados ao passar e ver o mar pela última vez antes de serem executados ou trancafiados até a morte.
Suspirei de tristeza . Ao visitar as prisões com suas paredes grossas e a sala da Câmara de Tortura, onde os suspeitos eram presos pelos pulsos e pendurados em cordas, quase pude ouvir os lamentos e sentir o mau cheiro que devia fazer naquele lugar. É impressionante a sensação que nos dá estar nesses lugares e chegar tão perto do passado. Ver quanta coisa horrível a humanidade precisou passar para chegar ao nível de “civilidade” que temos hoje.
Estar na Europa me faz sentir grande e pequena demais. Como ser humano, fico impressionada com a capacidade criativa dos artistas e arquitetos. Fiquei estarrecida com as atrocidades que foram feitas pelo poder e pelo dinheiro, e tantas em nome de Deus. Sinto-me ao mesmo tempo insignificante ao caminhar  por onde passaram pessoas há mil anos e continuarão a passar. Considero-me uma privilegiada ao poder estar aqui, ao ver Veneza e torcer para que ela nunca afunde, por deixar que esses pensamentos me levem para uma outra consciência.

Tirei esta foto da fresta da janela dos suspiros em uma linda manhã de sol. Só que com outra sorte, eu poderia sair daquele lugar para voltar para os encantos de Veneza e do mundo. Ai, a liberdade! Como é importante conhecer, sentir e aprender. Aproveitar, enquanto é tempo, das maravilhas que estão aí. Usufruir dos patrimônios da humanidade como Veneza. Eles contam sobre nós e estão aí para nós, em um tempo curto, mas suficiente para nos encher de satisfação de estarmos vivos, aqui e agora.