O simpático Dalmir, radialista da Bandnews, acabou de me ligar pra gravar uma entrevista. Perguntou se poderia ser agora, eu falei: lógico! Tirei o cabelo da toalha e sentei no sofá pra prestar bem atenção. Tinha ido dar uma corrida no Parque Ibirapuera e a chuva me pegou, chuva daquelas de dar medo, fiquei ensopada, e pensei na hora: depois da tempestade vem a bonança, nem só de trapalhadas passa-se o dia de uma IF. Ele perguntou se tinha um tel fixo pra melhorar a qualidade, eu disse que não, expliquei que estou no ap do filho e esses rapazes não sabem pra que servem os tels fixos, agora vou dizer pra ele que se ele quiser falar na rádio vai precisar de um, rs. Ele disse que iria gravar pelo cel mesmo. 3, 2, 1, gravando: - Estou aqui com a escritora Valéria Figueira.... Parei. Vi outro raio clarear tudo, mesmo dentro do pequeno ap. Eu já sou uma escritora? Basta escrever um livro para virar uma escritora? Ninguém tinha me dito isso! Será que já posso colocar no campo "profissão" das fichas de hotel? Inspirei e me joguei, se ele está dizendo que eu sou, é porque eu sou! Ele começou assim: - Quer dizer que você vai lançar o seu livro no dia 14 de março... - Kkkkk, esse é farinha do meu saco, pensei. Daí ele consertou, e eu entrei na hora pra ajudar, pois eu acho que todos os distraídos do mundo deveriam se unir: - Já passou o lançamento, mas está na hora de comprar o livro, que está chegando nas livrarias... ... ... Posso falar os nomes das livrarias, Dalmir? - Fiquei na dúvida, não tem um lance que não pode fazer propaganda de outras empresas? Ele disse que poderia, bacana, o Dalmir. Então mandei ver, patati, patatá... foi!!! Acabei de descobrir que eu adoro esse negócio de falar na rádio. Do sofá de casa, então... Pois bem, se alguém se interessar em ouvir a entrevista de um experiente repórter, às vezes falível, com uma novata escritora, às vezes Incrível, é só sintonizar na Bandnews, 99.1, no sábado, às 9:00hs!
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20 março 2015
3, 2, 1, gravando!
O simpático Dalmir, radialista da Bandnews, acabou de me ligar pra gravar uma entrevista. Perguntou se poderia ser agora, eu falei: lógico! Tirei o cabelo da toalha e sentei no sofá pra prestar bem atenção. Tinha ido dar uma corrida no Parque Ibirapuera e a chuva me pegou, chuva daquelas de dar medo, fiquei ensopada, e pensei na hora: depois da tempestade vem a bonança, nem só de trapalhadas passa-se o dia de uma IF. Ele perguntou se tinha um tel fixo pra melhorar a qualidade, eu disse que não, expliquei que estou no ap do filho e esses rapazes não sabem pra que servem os tels fixos, agora vou dizer pra ele que se ele quiser falar na rádio vai precisar de um, rs. Ele disse que iria gravar pelo cel mesmo. 3, 2, 1, gravando: - Estou aqui com a escritora Valéria Figueira.... Parei. Vi outro raio clarear tudo, mesmo dentro do pequeno ap. Eu já sou uma escritora? Basta escrever um livro para virar uma escritora? Ninguém tinha me dito isso! Será que já posso colocar no campo "profissão" das fichas de hotel? Inspirei e me joguei, se ele está dizendo que eu sou, é porque eu sou! Ele começou assim: - Quer dizer que você vai lançar o seu livro no dia 14 de março... - Kkkkk, esse é farinha do meu saco, pensei. Daí ele consertou, e eu entrei na hora pra ajudar, pois eu acho que todos os distraídos do mundo deveriam se unir: - Já passou o lançamento, mas está na hora de comprar o livro, que está chegando nas livrarias... ... ... Posso falar os nomes das livrarias, Dalmir? - Fiquei na dúvida, não tem um lance que não pode fazer propaganda de outras empresas? Ele disse que poderia, bacana, o Dalmir. Então mandei ver, patati, patatá... foi!!! Acabei de descobrir que eu adoro esse negócio de falar na rádio. Do sofá de casa, então... Pois bem, se alguém se interessar em ouvir a entrevista de um experiente repórter, às vezes falível, com uma novata escritora, às vezes Incrível, é só sintonizar na Bandnews, 99.1, no sábado, às 9:00hs!
20 dezembro 2014
Disfarce de Papai Noel
Há uns dias, uma amiga me viu arrastar a caixa da árvore de Natal e comentou: - Daqui a pouco não vamos mais precisar desmontar a árvore de um ano pro outro, do jeito que o tempo está passando cada vez mais depressa…
Era exatamente aquilo que eu pensava e não sabia, estava com tanta preguiça, por obrigação, só porque consta no manual da mãe perfeita em negrito que casa com crianças tem que ter árvore de Natal. Chamei as meninas pra me ajudarem mas ninguém topou, numa prova de como os adolescentes mudam de um ano pro outro. Pensei em intimá-las, mas sou fraca em forçar a barra pras coisas. Pensei em deixar pra depois, mas aquele trambolho já estava há uma semana no meio da área de serviço, e em mais uma piscada o Natal já teria passado.
Outro dia, que já deve fazer uns dois meses, cheguei a sentir antipatia dos shoppings nos empurrando as decorações cafonas e um espírito de Natal que não teve tempo pra descansar, não é possível. Não vi graça nas luzes da cidade, as propagandas da TV estão mais forçadas ainda e eu não estava a fim de comprar presente pra ninguém. Tem um livro que ganhei no ano passado que ainda não abri, os cartões ainda estão por cima de uma gaveta e a vontade de comer peru não chegou.
Respirei e perseverei, como nos finais das corridas, quando nos dá uma fraqueza e é preciso fabricar energia pra chegar no fim. E olha eu sou dessas que amam desculpas pra encontros, roupas bonitas e festas. Mas ter aquela trabalheira toda, e com garantia pelo menos um quilo a mais... Mesmo assim segui na empreitada, escolhi os melhores enfeites, que são os que foram feitos pelas crianças ou com fotos delas. Olhar para aquelas carinhas deu um aperto, eles estão tão diferentes! Torci para as luzes estarem ainda boas e remendando aqui e ali, salvei 60% delas, era o suficiente. Chamei as meninas pra ver. - Ah, legal! – Ficou bonito, mãe! - a outra disse, de passagem, com o celular na mão.
Pra tentar aumentar a graça do momento, e diminuir o pesar que dá quando percebemos a vida passar muito rápido, comecei a enumerar o que realizei este ano. Muito, até para uma hiperativa zen ansiosa proativa, reconheço. E agradeço. Num instante os 60% de luzinhas recicladas brilharam um bocadinho mais. Fui lá, estirei os galhos e dei mais uma desamassada nos laços. Coloquei a árvore mais pra frente, mais pra fora, e um pouco mais pra perto de mim.
Assim senti o primeiro sopro desse tal espírito natalino de 2014. Ele não passa de uma oportunidade de exercer a gratidão e a união, disfarçada num figurino bem brega. E não vem mesmo, não adianta, da TV, dos presentes, das árvores, nem das luzes na rua. É um estado de consciência, e como os outros não precisa de nada, nem motivo, nem companhia. Pode chegar em nossos corações em qualquer época do ano. Mas, vamos reconhecer, reunidos em família, com uma mesa cheia de delícias e cercado de vermelho com luzinhas brilhando, fica melhor ainda.
Assim senti o primeiro sopro desse tal espírito natalino de 2014. Ele não passa de uma oportunidade de exercer a gratidão e a união, disfarçada num figurino bem brega. E não vem mesmo, não adianta, da TV, dos presentes, das árvores, nem das luzes na rua. É um estado de consciência, e como os outros não precisa de nada, nem motivo, nem companhia. Pode chegar em nossos corações em qualquer época do ano. Mas, vamos reconhecer, reunidos em família, com uma mesa cheia de delícias e cercado de vermelho com luzinhas brilhando, fica melhor ainda.
30 novembro 2014
Uma bicicleta por uma boa lembrança
Era um domingo de março de 1992, em Vitória da Conquista. Já
tinha combinado tudo, o Deda iria emprestar a pampa. Ele me pegou em
casa com a Mó e antes das 10h passamos de casa em casa acordando o pessoal.
Todos indevidamente em pé na carroceria do carro, na época em que cinto de
segurança só servia pra cair no chão e atrapalhar na hora de fechar a porta. No
som, o axé que ainda era uma criança, entrava com simpatia em qualquer domingo
de sol. Assim passamos o dia do meu 17º aniversário, de bar em bar, subindo e descendo da pampa, eu pagando
as contas com uns cheques que eu não tinha a menor ideia de como iria cobrir.
Isso era um problema para a segunda feira. Sim, seria o dia seguinte, mas inebriada pela cerveja que era vendida livremente, me parecia que
teria tempo suficiente pra arrumar um trabalho, ganhar na loteria ou receber
uma verba extra muito merecida pelo meu dia. Eu dizia: - Deus proverá! – assim,
na maior cara de pau, como se Deus fosse se importar em bancar a minha farra. O
tour acabou no clube da AABB da cidade, num show da banda Mel, com todos girando com o dedo pra cima, cantando: “Vou dar a volta no
mundo, eu vou, vou ver o mundo giraaaarr…” Em uma dessas voltas, a Nanda arriscou um passo mais ousado e acabou rompendo o ligamento do joelho. Mas isso ela só
apurou depois. Antes, na segunda feira que teimou em chegar, na ida para
o colégio, ela teve uma idéia brilhante:
- Nega, cadê a sua bicicleta?
Uma bicicleta branca meio cafona com cestinha, mas novinha. Quem precisa de
uma quando se tem amigos que dirigem? Desta forma, a loja de
bijuterias do tio Fernandão, o pai dela, abriu as portas com uma bicicleta no
passeio com um papel oficio grudado escrito: R$250,00. E antes do banco fechar, o depósito foi feito, o valor batia incrivelmente com o total dos cheques que eu tinha passado.
Acho que na minha vida quase tudo
aconteceu meio assim, como se tivesse uma equipe no céu que me protegesse. E protegesse os meus amigos também. Todos dirigiam sem carteira, mas não me lembro de uma blitz ou batida, de alguém se machucar (só do joelho de Nanda, mas aí foi ela sozinha e a pé mesmo). Nós nunca fomos assaltados, nunca nos metemos em uma confusão, nunca nos ofereceram drogas, além da bebida e da lança perfume na micareta, sem também, graças, piores consequências.
Não posso me lembrar da equipe do céu e esquecer da equipe da terra, liderada pelos queridos Tio Deri e Tia Yara, os pais de Mó e Deda, que davam um jeito de estarem em todas as viagens e se tornarem nossos amigos. Eles nos hospedavam, nos acolhiam e nunca perdiam a oportunidade de nos dar um bom conselho.
Nas voltas do mundo desses quase 23 anos, muita coisa mudou. Meu filho tem 19 anos, carteira de motorista, mas nunca me pediu o carro. Não bebe e prefere conversar com os amigos pelo whatsapp. Ele não sabe nem como funcionam os cheques, e é incomparavelmente mais bem comportado do que eu. A Banda Mel saiu da mídia e o joelho da Nanda nunca ficou bom, até hoje ela sempre diz que tem mais uma cirurgia pra fazer. Entraram os cintos de segurança, a lei seca, o crescimento da violência, e muito mais do que nos protege e do que nos impede.
Não posso me lembrar da equipe do céu e esquecer da equipe da terra, liderada pelos queridos Tio Deri e Tia Yara, os pais de Mó e Deda, que davam um jeito de estarem em todas as viagens e se tornarem nossos amigos. Eles nos hospedavam, nos acolhiam e nunca perdiam a oportunidade de nos dar um bom conselho.
Nas voltas do mundo desses quase 23 anos, muita coisa mudou. Meu filho tem 19 anos, carteira de motorista, mas nunca me pediu o carro. Não bebe e prefere conversar com os amigos pelo whatsapp. Ele não sabe nem como funcionam os cheques, e é incomparavelmente mais bem comportado do que eu. A Banda Mel saiu da mídia e o joelho da Nanda nunca ficou bom, até hoje ela sempre diz que tem mais uma cirurgia pra fazer. Entraram os cintos de segurança, a lei seca, o crescimento da violência, e muito mais do que nos protege e do que nos impede.
Outras coisas não mudam. Desde outubro viajo pelos aniversários
de 40 anos destas mesmas amigas, em encontros cheios de crianças, músicas daquela
época e muitas risadas de histórias como essa. Uma é designer de luz e se casou
com uma mulher, a outra é médica, foi morar em Ilhéus e já pode se candidatar a
vereadora por lá, de tão querida. Tio Deri e tia Yara seguem animados entre nós nas festas. Tem uma amiga que encalhou, mas não desiste, está tão metida agora que emagreceu, que faz de cada suspiro um flash pra postar no Face. A outra se casou com um mato grossense, e eu fui parar em Campo Grande pra sua festa, e aproveitamos pra tomarmos uns belos
banhos de cachoeira e conversarmos de noite na cama com a luz apagada até o sono chegar. Sem maridos, sem filhos, só nós, como antes, como somos.
Não nos faltam assuntos e nos sobram cumplicidade, confiança e
intimidade. Nós não ouvimos as nossas estórias, nós estávamos lá.
Presenciamos os vestibulares, as formaturas, as desilusões amorosas, os bebês
chegando, as barras, as conquistas, as mortes e os recomeços. Fomos madrinhas de casamentos umas das outras, madrinhas dos filhos também. Esses meninos de todos os tamanhos, sexos e jeitos diferentes nos provam, a cada ano, quando se juntam, que filhos de grandes amigas, amiguinhos são.
Já nos despedimos centenas de vezes, e a vida nos mostrou que não importa quanto tempo passe, na hora do reencontro é como tivéssemos pulado pra fora da pampa no dia anterior. Os tamanhos dos nossos quadris não são os mesmos, apesar do esforço, mas os sorrisos são. Atrás das mães, das profissionais, das cicatrizes de cada uma e de todas as capas que precisamos colocar pra sobrevivermos, os risos frouxos nos denunciam. Eles entregam as meninas meio fora da regra, espontâneas, farinha de um mesmo saco conquistense, fascinadas por emoções genuínas, tão amorosas, e talvez por isso, tão abençoadas por Deus.
Já nos despedimos centenas de vezes, e a vida nos mostrou que não importa quanto tempo passe, na hora do reencontro é como tivéssemos pulado pra fora da pampa no dia anterior. Os tamanhos dos nossos quadris não são os mesmos, apesar do esforço, mas os sorrisos são. Atrás das mães, das profissionais, das cicatrizes de cada uma e de todas as capas que precisamos colocar pra sobrevivermos, os risos frouxos nos denunciam. Eles entregam as meninas meio fora da regra, espontâneas, farinha de um mesmo saco conquistense, fascinadas por emoções genuínas, tão amorosas, e talvez por isso, tão abençoadas por Deus.
24 abril 2014
O desejo do NADA
Nos dias atuais, a demanda de tarefas e as cobranças nos provoca uma necessidade de estarmos atentos e de produzir o tempo todo. Temos que trabalhar, criar filhos, dar atenção às pessoas, cumprir os compromissos no caos que está esse trânsito, cuidar dos afazeres domésticos, malhar, estudar, aprender uma nova língua e até viajar e nos divertir de vez em quando. - E ainda precisamos estar com a unha pé feita! - Como sempre me diz uma amiga querida.
A conta? Ansiedade dividida em doze generosas parcelas por ano. Ânsia de ser boa em tudo, boa pra todo mundo, melhor e melhor pra si. É impressionante que até parada, e principalmente parada, estamos confabulando. Estamos vírgula, eu estou. Eu não sei você, mas se eu assisto a um filme, preciso anotar "aquela fala" pra usar depois, e ainda coloco as legendas em inglês pra treinar. Livro sem marcar não existe. Se vejo uma cor bonita, tenho que guardar o nome pra usar em algum lugar na decoração do apartamento. Se é algo a fazer, vai pra agenda do iphone, e com alarme. Se não retornar a ligação de alguém, me sinto um lixo. Se é um momento feliz, tem que ter foto. Não há HD que aguente!
Quando me lembro da adolescência, da preguiça e do sono que eu tinha, tenho a sensação de que estou na terceira vida nessa aqui mesmo. Às vezes preciso fugir do script da mulher madura responsável e evoco a adolescente, aquele da mocinha que não queria nada e que tão bem sabia dormir, ai que saudade!
Pensando em tudo isso, e principalmente por não conseguir parar de pensar, ontem concluí o meu segundo curso de meditação, o Sahaj Samadhi, do Arte de viver. Um dia eu aprendo. Sahaj, em sânscrito, significa ausência de esforço, e Samadhi é o silencioso, porém vívido estado de consciência que se encontra na fonte do pensamento. Quer dizer "descansar no ser", olha que coisa linda, tudo que eu preciso.
Com a palestra da Rashree Patel, uma mestra indiana, aprendi que se você alimenta seus pensamentos ruins, eles se tornam ações e aumentam a sua causa e efeito. Ela diz que não é preciso entender porque nos sentimos assim ou assado, a ordem para ser feliz é ACEITAR. A meditação é a prática de aceitar o momento presente, aconteça o que acontecer, em sua totalidade.
Eu aceito, eu quero aceitar tudo. Aceitei receber do simpático mestre argentino Ramiro Araujo o mantra pra meditar silenciosamente. Ele escolhe um pra cada pessoa de acordo com os seus desejos e necessidades. No curso, ele lembrou que vivemos a repetição sem parar, e o mantra tem a função de cortar essa repetição. Ele limpa a mente, e em consequência disso, provoca o tão desejado descanso no ser.
Hum rum. Tudo lindo, passei os três dias lá, fiz tudo direitinho, e nada. Eles não me largavam, enquanto eu estava lá quietinha e de olhos fechados: a lembrança de ligar pra saber como vai a tia, as providências pra festinha da filha, a idéia de pagar uma última conta quando chegar em casa. Já estava pra catar o meu tapete e pegar o meu rumo quando o Ramiro falou: - Não cobre nada da sua meditação, não espere muito de hoje. Quando um pensamento aparecer, dê um oi pra ele, deixe ele vir e ir embora. Faça isso por 30 dias, duas vezes ao dia, 20 minutos cada vez e aí sim, me mande um e-mail dizendo no que deu.
Deal! Eu sou de pagar pra ver, pior do que está eu não vou deixar ficar. Vou sim lutar com esses monstrengos, essa cambada de inúteis. Daqui a 30 dias então eu conto pro Ramiro e conto pra vocês. Até lá, no alvorecer e no entardecer eu vou tentar fazer algo extremamente útil, importante e necessário: NADA!!!
20 abril 2014
Parada a 1000/h
Aqui estou a escrever o quarto texto da semana. Parece muito, mas não é quase nada se eu disser que assisti dois filmes, uma série li três livros neste mesmo período. Se eu contar que contactei com algumas pessoas com quem eu não falava há meses e se eu somar a isso as orações que fiz.
Uma façanha obtida por livre e espontânea necessidade médica. Me submeti, acho que é assim que se diz, à uma cirurgia de mama que não me permite fazer nem 15% dos movimentos que gostaria. Hoje eu sei como se sentia o Tiranossauro rex. Só tomo bastante cuidado em manter a boca bem fechada pra não ficar enorme como ele, já que não estou apta a praticar os exercícios dos quais estou acostumada. O que fazer então com aquela energia que era liberada todos os dias? Nem jogar pedras eu posso, o meu braço não estica!
Então eu leio, escrevo e respiro. Quase uma monja, só que com um detalhe, a minha mente não pára. Nesse tempo já comprei três trechos de passagens, sabe Deus se vou dar conta de ir. E enquanto não vou, já viajei pelo sertão de 1930 com o Vidas Secas do Graciliano Ramos, me diverti horrores com o O diabo que te carregue! da Stella Florence, pegando uma carona na história da separação dela para repensar as minhas. Dei uma volta pelo oriente, com O Xamã no Tibet, conhecendo como o Milarepa chegou à iluminação. Quanto mais eu lia, mais eu via o quanto estou longe da minha. Conheci também um pouquinho mais sobre o Ernest Hemingway e a Martha Gellrorn no filme que tinha tudo para ser melhor, intitulado Hemingway e Martha, com aquela linda da Nicole Kidman. Sinceramente, se eu tivesse aquela cintura, eu não falava com ninguém. E ela ainda é a mais suave atriz que eu conheço, mesmo fazendo a correspondente de guerra Martha, a segunda mulher do Hemingway. Quanto a este, vou poder dizer um bocadinho mais quando o meu exemplar de O sol também se levanta chegar pelo correio. Ah sim, fiz compras nesse período também! Comprei quase todos os livros os quais me lembrei que um dia gostaria de ler, e isso me deixou até mais calminha. Que mais? Assisti a boa história As palavras, desses filmes que a gente não pode contar nadinha porque senão estraga tudo. Ele trata sobre a arte e a dor de escrever. Ainda nesse tema, dois dias antes de cair na faca, assisti a peça A Gaivota do Tchekhov, duas horas e meia de aula sobre texto e sobre teatro, numa montagem bem encenada pelos Argonautas.
Ho! Pra relaxar, desencavei a série completa do Sex and the city, pra cair por terra a imagem que vocês começaram a fazer de que estou me intelectualizando. Haha! Logo eu. Eu não tenho vocação pra Martha, nem pro Milarepa, muito menos pro Tchekhov, eu estou muito mais pra Carrie!!! Eu quero viagens, roupinha nova e um amor idem, isso sim.
E nessa esculhambação de pensamentos pra alimentar a minha criatividade, digamos assim, eu me recupero. Enquanto os meus pontos cicatrizam, novas idéias se partem. Eu mal posso sair do quarto, mas a minha imaginação voa, conhece e planeja. Foi de longe a semana santa mais fértil que já tive na vida, o que não quer dizer que eu não a trocaria facinho por um quarto de hotel na areia da praia a fazer absolutamente nada (e tudo) com alguém que eu adorasse. Olha, deixa eu parar porque hoje eu estou demais, deve ser a carência desse estado de convalescência.
Me recolho então à condição de T-rex que não pode devorar nada nem ninguém e volto pras minhas viagens apenas imaginárias e acumulo energia pra viver e valorizar o potencial e a capacidade que tem uma pessoa quando pode esticar os seus braços!
16 abril 2014
A Malu de Mel
Que eu sou uma amigueira, todos já sabem. Cunhadas então, é um problema. Fazer o que, o meu irmão é um cara de sorte e me dá a possibilidade de conviver com mulheres incríveis. E quando os relacionamentos dele acabam.... as minhas amigas ficam!
Com a Mel foi assim. Bem fez ela em se livrar do enrolado do meu irmão, porque em pouco tempo ela conheceu no avião um novo amor e se casou com ele. Entrou cantando na igreja, a coisa mais linda. A Mel tem uma voz e um astral maravilhosos. É exuberante, com longos cabelos pretos e um senso de humor único, é fácil e maravilhoso estar perto dela.
Logo eles construíram uma casa para morar cercada de verde e ela engravidou da Maya, e menos de dois anos depois, da Malu. Tudo acontecia como numa sequência de contos de fadas. A sua bebezinha caçula nasceu um pouquinho menor do que a primeira e dormiu com ela no quarto do hospital. Acordaram juntas, e estavam se curtindo quando a médica entrou no quarto e chamou atenção para os cuidados que ela deveria ter com um bebê com Down.
Foi tão bonito o seu relato, eu pedi que ela escrevesse mas ela devolveu a bola pra mim, pediu para que eu o fizesse. Aqui estou então, só porque não tenho a menor pretensão de chegar perto da emoção descrita por ela.
O mundo dela caiu, tudo rodava e ela não sabia em que se segurar. Todos os exames foram feitos na gravidez e em nenhum foi levantada esta hipótese. Mel olhou para o marido, que negou a situação, disse que a Malu precisava ser melhor examinada antes de darem o diagnóstico. Então a Malu foi examinada várias vezes, as suas características físicas evidenciavam a presença da síndrome, e o marido da Mel continuou negando a situação até que tudo fosse comprovado no exame de sangue. Conseguir a aceitação dele foi apenas a primeira vitória de uma mãe que teria que aprender a lutar.
O segundo desafio foi amamentar. Eu não sabia, mas os bebês com Down costumam não ter a força necessária na boca para a sucção do seio. É uma conquista difícil, só que apareceu um anjo em forma de enfermeira que a ajudou durante uma noite inteira, e perseverou, até que a pequena Malu pegasse o peito. Daí, cada vez mais preparadas, as duas partiram para conhecer a equipe que ajudaria a Malu a se desenvolver. Um pediatra, uma fisioterapeuta e uma fonoaudióloga, pra começar.
Assim encontrei este mês a minha amiga guerreira de nome doce com a sua cria. Ela chegou à cidade por poucos dias, sem carro, mas conseguiu encontrar terapeutas para que a Maluzinha não filasse o programa.
Elas vieram nos visitar, a Malu tinha feito três meses, sorridente, linda, num vestido florido amarelo e rosa. Pequena e meiga, provocou uma briga aqui em casa, todas queriam pegar aquela bonequinha perfumada. E ela querendo a mamãe, reclamava dos nossos colos estranhos com as feições, mas não chorava. Suavizava imediatamente os músculos ao se sentir nos braços de Mel, que tentou disfarçar, mas lhe escapuliu a confissão de que esse é um amor diferente. A Malu, já deitada em suas pernas, a ouvia atenta e olhava para ela como quem consentisse.
Eu tentei imaginar que espécie de amor era aquele, maior do que o infinito amor de mãe já experimentado, seria possível? Naquele instante elas me convenceram que sim. A fragilidade de Malu parece despertar em Mel uma comoção difícil de descrever. Elas tem um pacto, de pertencerem uma à outra para sempre, imaginem essa força...
Eu fiquei tão impressionada com a ternura deste encontro que não conseguia tirar a Malu da cabeça. Os seus olhinhos fixos na mãe, a voz encantada da Mel ao falar da filha. Quando eu tenho a oportunidade de me deparar assim com o amor eu o absorvo. Me alimento, me contento, me conformo.
O papai, quando se rendeu, foi pra valer. Quer mais uma filha, quer mais vida naquela casa cheia de verde, quer mais Mel e meninas com M maiúsculo à sua volta. Esse tem sorte e sabe sobre o que mais importa. Toda a família caiu de amores pela Malu e o cuidado agora é para não despertar os ciúmes da Maya, a menina esperta que cantarola o dia inteiro, como a mamãe.
Impossível não se apaixonar por esta família. Eu adorei essa história. Agradeço imensamente à minha amiga por me permitir presenciá-la e registrá-la. Enquanto ela descobre a filha tão especial que chegou pra ela, eu e todos a sua volta descobrimos a mulher tão especial que renasceu pro mundo.
15 abril 2014
Vivendo o sonho e sonhando acordada
Esta noite sonhei que tinha entrado em um grupo no whatsapp com uns amigos que também estavam sonhando. Foi muito divertido. Tínhamos mais tempo, mais liberdade, todos estavam na maior folga, flutuando, no plano onde tudo é possível.
Acordei vibrando! E acreditando que tinha sido de verdade. E quem vai me dizer que não foi? Não me lembro do nome de sequer um dos participantes da conversa mas, se não me engano, era permitido entrar pessoas que já não estão mais na terra, de outros planos e fases das nossas vidas. Se já podemos teclar online com gente do outro lado do mundo, para atingir outros planetas ou chegar no céu é um pulo, eu acho.
Imaginem uma comunicação transcendente, profunda e real, sem máscaras, idades ou corpos segurando um de um jeito, outro de outro. Nem mesmo condições sociais, hierárquicas ou familiares. Poder ter um "papo reto" amoroso e verdadeiro de alma para alma.
Acordei pensando. Sim, que eu passo tempo demais no iphone, também. Mas pensava principalmente nessas conexões que são formadas em vários níveis, conscientes ou não. Pensando em como podemos nos encantar com um amigo à primeira vista, na razão de alguns encontros serem tão fáceis, naturais e perpetuarem. Uma das coisas que eu acho mais maravilhosas na vida é a possibilidade de se bater com alguém em um momento qualquer e querer aquela pessoa pra sempre. Pode ser uma relação de longe, com encontros mensais, anuais ou a cada dez anos, alimentados via redes sociais, e-mails, pouco importa. Entendam; longe não é distante, muito menos indiferente. As relações de verdade tem a dinâmica que cabem no tempo dos dois, com um querer recíproco e com um interesse genuíno.
Esse barato mesmo nosso aqui, de autora com leitor (a), é um grande encontro. Eu não fico sabendo das suas respostas nem mesmo posso ver as suas expressões pra entender se o rumo da conversa está bom, mas continuo a dizer e a procurar fazer sentido, mesmo em uma viagem louca como essa sobre whatsapp, sonhos e amigos. Realmente gosto de me afinar com gente por aí e por aqui, até sonhando!
Se for pra me fechar, melhor não acordar, melhor não viver. Mesmo com os riscos e as decepções que volta e meia nos assombram, voltemos para os nossos whatsapps para ver quem se interessa por nós, nesse plano astral mesmo, e quer saber como estamos.
Sejam bem vindos os que ainda carregam a pureza de acreditar nas pessoas, na possibilidade de encontros frutíferos, de relações de trabalho baseadas no ganha/ganha, em relacionamentos desinteressados e em famílias que crescem e se fortalecem juntas.
Esse é o mundo Incrível que escolhi investir, pelo qual sintonizo com um monte de gente que pensa e vibra mais ou menos parecido, em um universo paralelo regido pela fraternidade, no qual cabe até conversas de whatsapp via uma wifi intergaláctica sonambuslística.
A realidade está aí, dura. Na TV, nos jornais, sob os nossos olhos todos os dias. É preciso carregar as baterias dos sonhos para poder seguir com paz e saúde emocional. É por essa causa que decidi viver com esperança e sobre ela escrever. Viver sonhando e sonhar a vida com mais amigos é uma boa estratégia para quem, como eu, insiste em ver a graça de toda a coisa com os olhos e com o coração bem abertos.
25 setembro 2013
A beleza do vazio
Se
você tem uma forma minimalista, pura, concentrada no eixo de um espaço,
tudo mais é o silêncio, então a forma passa a ser a única nota musical daquele
silêncio, então ela tem um reverberação, ela tem uma força muito maior, é o
silêncio do vazio. Isso tanto pra arte quanto pra música, para o que for.
Ouvia isso ontem na carona do meu amigo e artista plástico Eliezer Nobre. "Para, para, para!" Não titubeei, peguei o celular para gravar e pedi para ele repetir, não queria perder nada. O exemplo que ele deu das artes plásticas com a música tinha tudo a ver com o meu momento na literatura. É meu desejo possibilitar aos meus textos a chegada da beleza do vazio.
Ele seguiu em um ritmo em que só as nossas conversas são capazes de alcançar, tentando permitir apenas alguns silêncios para não ser incongruente. É, conversa de gente sensível precisa muito de silêncios. Ele trouxe o exemplo das mostras de decoração onde tudo é perfeito, caro e de última geração. O que falta? O silêncio. Disse dos desfiles de moda, a caricatura do excesso, o que falta? O vazio.
Logo me veio à mente o mestre em teatro Harildo Déda na frase núcleo de todo o seu ensinamento para a arte do ator: "Menos é mais!", do quanto é difícil limpar uma cena e fazer um personagem sem representar. E ele exemplifica bem a riqueza do simples com o genial "Poeminha do contra", de Mário Quintana: "Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão, eu passarinho." Ou Clarice Lispector quando diz "Mas já que há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."
Ouvia isso ontem na carona do meu amigo e artista plástico Eliezer Nobre. "Para, para, para!" Não titubeei, peguei o celular para gravar e pedi para ele repetir, não queria perder nada. O exemplo que ele deu das artes plásticas com a música tinha tudo a ver com o meu momento na literatura. É meu desejo possibilitar aos meus textos a chegada da beleza do vazio.
Ele seguiu em um ritmo em que só as nossas conversas são capazes de alcançar, tentando permitir apenas alguns silêncios para não ser incongruente. É, conversa de gente sensível precisa muito de silêncios. Ele trouxe o exemplo das mostras de decoração onde tudo é perfeito, caro e de última geração. O que falta? O silêncio. Disse dos desfiles de moda, a caricatura do excesso, o que falta? O vazio.
Logo me veio à mente o mestre em teatro Harildo Déda na frase núcleo de todo o seu ensinamento para a arte do ator: "Menos é mais!", do quanto é difícil limpar uma cena e fazer um personagem sem representar. E ele exemplifica bem a riqueza do simples com o genial "Poeminha do contra", de Mário Quintana: "Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão, eu passarinho." Ou Clarice Lispector quando diz "Mas já que há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."
Isso
nos faz lembrar que assistir teatro sujo e caricatural é uma das piores
torturas que existem, e que também é possível parar de respirar com uma pausa
bem feita, no teatro e na dança. Já imaginou uma música sem pausa, uma vida sem
pausa?
Portanto, sugiro o silêncio e o vazio agora. A omissão, o que não foi colocado, o espaço, o que não precisa ser dito, o subtexto, a vírgula, o ponto e as reticências. A imaginação, o não ser, o insípido e o inodoro, o branco, o imóvel, o ar, o céu sem a nuvem, o nada.
Para que o movimento e a forma apareçam com esplendor, para que as notas nos toquem, para que os aromas nos arrebatem, para que os sussurros nos chamem e para que as palavras cheguem, enfim, ao coração.
Portanto, sugiro o silêncio e o vazio agora. A omissão, o que não foi colocado, o espaço, o que não precisa ser dito, o subtexto, a vírgula, o ponto e as reticências. A imaginação, o não ser, o insípido e o inodoro, o branco, o imóvel, o ar, o céu sem a nuvem, o nada.
Para que o movimento e a forma apareçam com esplendor, para que as notas nos toquem, para que os aromas nos arrebatem, para que os sussurros nos chamem e para que as palavras cheguem, enfim, ao coração.
16 setembro 2011
Parâmetros
Em uma noite da semana passada, o meu PIF que estava na casa dele com as filhas de repente me mandou uma mensagem:
- FALTOU ENERGIA AQUI! Assim, com letras garrafais.
Eu que na minha estava, na minha fiquei. Estava jantando fora com a thurma, quando ele continuou:
- Não posso cozinhar!
- Vai pra um restaurante! Respondi. E continuei saboreando o meu taco com salada.
E a agonia dele foi até a minha sobremesa:
- Estou levando as meninas pra casa da avó. Inacreditável isso, não tem energia na vizinhança inteira, é assustador!
- Tive que rir. Como era mensagem ele não iria ver mesmo... Um estardalhaço porque faltou luz, imagina! Hein gente? Lembra aí! Quantas noites da sua infância você passou no escuro?
Eu me lembro de várias....
Uma terça feira qualquer fazendo qualquer coisa (na pior das hipóteses tomando banho)
Black out!
A primeira coisa que ouvia-se era a voz da vizinhança, - Ohhhh!!!!
Daí logo chegava um na janela pra ver se foi só por perto ou foi longe.
Eu já ficava chateada pensando que iria perder a novela.
Procura-se uma vela, procura, procura... Achei! Um toquinho mas serve.
Pinga o tôco de vela no pires e o coloca no lugar mais alto do quarto.
Até que vem seu irmão vem de lá e a rouba.
Gritos, confusão, a mãe traz de volta e diz que só pode tirar pra ir no banheiro.
Lembro de colocar a revistinha da Mônica bem pertinho e conseguir ler.
E eis que mais cedo ou mais tarde... Tcahnram!!!! Ela volta.
Apagava-se o tôco de vela, guardava-o para a próxima, ligava a TV e tudo voltava ao normal.

Depois do café ela ascendia o candeeiro da cozinha, o primeiro e o mais importante da casa. Era um ritual silencioso e lento, ai.... como o tempo passava devagar na casa de Anália!...
Essa viagem toda foi feita em alguns segundos e logo voltei para me colocar no lugar do meu queridão que (infelizmente, rs) não teve esse back ground e que parecia estar chateado. Eu, que estava demonstrando ser "a insensível" mandei um- Are you ok love? -pra não ficar chato. Mas continuei sorrindo pensando em como tudo depende dos parâmetros, que várias coisas nesse mundo poderiam me deixar assustada, mas queda de energia? Tsc, tsc. No way!
11 julho 2011
De cortinas fechadas
Rio de Janeiro, julho de 2011. Três primas se encontram em situação inédita para pegar um táxi para a visita. Aliás, dois taxis porque Debbie levou o Steve dela e eu levei o meu.
Destino: Avenida Atlântica, Ed. Joanes, apto 501. Casa do tio avô de 82 anos. Já se sabia que o tio não estava mais lembrando muito bem das coisas e que muito menos se lembraria de nós, mas fomos mesmo assim.
Chegamos às 15:45, quinze minutos antes do combinado. Subimos o elevador antigo, todo revestido em mogno com aquela grade que se fecha antes da porta.
Socorro abre a porta. Foi quem atendeu ao telefone e combinou o horário, é quem toma conta do tio, já trabalha na casa há 19 anos. Pede para sentarmos e aguardamos que ele já estaria vindo.
Desde os primeiros passos o apartamento nos impressionou; primeiro pela escuridão. Mesmo estando em uma tarde de inverno, não poderia estar assim. Cortinas pesadas na cor ocre vedavam quase todas as janelas. Parecia um bloqueio. Chegamos mais perto para desvendar o mistério que já sabíamos; do lado de lá a exuberância do mar da praia de Copacabana.
Apartamento enorme, com grandes e antigos sofás, todas as madeiras muito escuras, tapetes por toda parte. Várias pilhas de jornais velhos dobrados no chão. Olhava para os lados, via as outras salas mas não tive a menor vontade chegar lá. Na parede quadros sombrios retratando personagens hora com dor, hora com medo, muitas vezes sem rosto. Esculturas com as mesmas expressões. Fiquei imaginando que seriam quadros muito caros e se caso eu pudesse escolher um, qual seria. Não consegui, não queria olhar nunca mais para nenhum deles, eles me assustavam. Foquei a atenção em dois vasinhos vermelhos na mesa de centro.
Digo para as primas: - Você vão ver que ele só vai aparecer às quatro em ponto. As primas riem. Rapidamente emendo em um comentário infame:
- Mas que coisa, todos falavam da Martha que casou com o Tio, que poderia ser por interesse sendo ela muito mais nova do que ele, acabou que ela morreu e ele está aí até hoje. Isso bem baixo para nenhum daqueles bois da cara preta nos quadros ouvir e depois irem correndo contar pra ele.
Dito e certo. As quatro em ponto chega o Tio Otávio, de camisa de manga comprida e casaco cinza, calça meia e sapatos pretos. A última vez que o vi eu tinha dez anos e acho que de lá para cá ele não mudou muita coisa. Comecei a pensar que de velho para mais velho nós não mudamos muito.
Ele chegou sorrindo e cumprimentando a todos mesmo sem ter a menor idéia de quem se tratava. Ficou logo impressionado com o tamanho do Steve, o marido da Debbie. Ao o apresentarmos como americano, ele ficou satisfeito em ter um assunto e começou a falar sobre a sua experiência nos EUA. Contou detalhes sobre a viagem que fez para lá na década de 50, sobre a segregação racial da época e suas experiências como um aventureiro.
No primeiro silêncio fiz questão de garantir o cumprimento da minha missão. Falei:
- Tio, Essa é a Debbie, filha da Heloisa, essa é a Isa, filha da Heliane e eu sou a Valéria, filha da Edilce, nós somos netas da Stella, as nossas mães mandaram um abração pro senhor.
Ela tascou uma risada sem graça e disse: - Mas vocês cresceram demais sô! Em um jeito bem mineiro-simpático de dizer: ainda não tenho a melhor idéia!
Isa resolveu investir: Sou filha da Heliane e do Stoessel, que era seu amigo, o senhor gostava de tomar uns wiskinhos com ele... Ela fala e depois cochicha pra mim - Ele vai lembrar melhor do meu pai, ele gostava muito dele. E volta para o tio: - Hein, Stoessel, o senhor se lembra?
Ele diz: Ahhhh!!! E muda de assunto.
Nesse momento Socorro entra na sala e nos convida para um café na copa. Achei bem chique esse momento, certamente estamos perdendo muito dos encantos de antigamente. Já estou planejando um resgate, vou fazer com a próxima visita; conversar um ambiente com ela e depois ter alguém para nos convidar para uma mesa surpresa em outro lugar.
Na mesa do tio tinha café, leite, pães, manteiga, frios e bolo. Nesse momento senti muita saudade de minha avó (a irmã dele) e desejei ter a presença dela, da minha mãe e das minhas quatro tias.
O lanche estava ótimo, todos fizemos questão de provar uma coisinha mesmo tendo acabado de almoçar. Eu que não tomo café tomei quase a xícara toda. Mas para colocar o tom da vida como ela é, passamos todo o tempo ouvindo barulhos de reforma no apartamento vizinho. Comentei:
- Como é chato reforma né tio? Lá no meu prédio estamos na mesma.
- É, mas tem que fazer né uai? Eu me lembro resolvi comprar esse apartamento porque estava muito barato, mas estava acabado. Eu mexi nele todo, fiz uma reforma imensa. Me lembro que quando fui para a primeira reunião de condomínio cheguei já me apresentando: - Eu sou o barulhento!
Acho que foi a primeira e a única que ele fez, pensei. Eu precisaria derrubar esse e fazer outro para vir morar aqui. Isso pensando bem baixo e sorrindo para não deixar o pensamento escapar para o rosto.
O tio continuou falando de seu passado, com muito mais ênfase nas décadas de 50/60. Disse que muito quis sair de Belo Horizonte para estudar na escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, mas que o seu irmão mais velho o repeliu dizendo que esse não era um curso de valor. Que ele teria sim que vir para a cidade para tomar conta de uma unidade do laboratório da família.
Assim ele fez e desde então passou a pintar sem técnica e só com sentimento todos aqueles quadros para mim do boi boi boi da cara preta.
Após o café, pedimos para tirar uma foto e ele prontamente disse sim, ajeitando o cabelo e ficando de pé para se posicionar entre as três filhas de quem já esqueceu e netas de quem já não se lembra.
Ao acabarmos o café o tio nos acompanhou à porta e no caminho acendeu uma luz, o que me deu uma enorme alegria. E assim, com mais claridade e com um abraço nos despedimos daquele tio simpático. Ele demonstrou ter gostado muito da nossa visita.
Agradecemos a Socorro pelo lanche e por cuidar tão bem dele, já que não há um filho ou um neto por perto. Não havia mais a mulher, nem nenhuma graça no passado recente.
Descemos o mais rápido possível o elevador de mogno e saímos quase saltitantes do prédio. Pela sensação de consciência tranqüila com a visita, por compartilharmos aquilo juntas, pelo ar puro daquele início de noite e por avistar todo aquele calçadão de Copacabana nos convidando a viver.
14 junho 2011
A, B, C e D em uma noite de namorados
Mês de junho em Salvador, sábado a
noite, véspera do dia dos namorados. Claudia espera a chuva passar um pouco
para ir buscar as duas amigas para saírem.
Uma delas é a Ana, a mais romântica. Enquanto se arrumava, por uns instantes ela se esqueceu do objetivo consumista da data e levou a coisa para o lado pessoal, bem na hora de escovar os cabelos. De repente a escova embolou-se e ela quase morreu de raiva por ter que desembaraçar o nó imenso e por ter que passar mais uma noite dos namorados solteira.
A outra é a Denise, a zen. Ela é jornalista, é a única que não tem filhos, que vive seguindo a corrente da vida, como ela mesma diz. A Ana a acha meio maluca, viajante demais, mas sai com ela já que a maioria de suas amigas está casada.
Escolhem ir para o Rio Vermelho, o bairro boêmio e alternativo da cidade, onde é possível encontrar pessoas de várias tribos e idades. Elas, que estão na faixa dos quarenta, não querem mais se arriscar a ir para um bar da moda e só encontrar a garotada que acabou de sair da adolescência.
Escolheram um barzinho tradicional e conhecido. Dão a sorte de encontrar uma mesa, bem no meio, na passagem para o banheiro. Ana que é, ou já foi, ou faz o tipo de uma moça comportada do interior sente-se desconfortável. Pede pra garçonete avisá-la assim que vagar uma perto da parede "pra não ficar muito exposta".
Enquanto isso, Denise coloca os pés na base da cadeira de Claudia, pede as bebidas e começa a cantarolar a música da Maria Rita que estava tocando.
A Claudia é da cidade, bem descolada, viajada e independente, acha a Ana até meio cafona, mas deixa pra lá. Mal se senta e já dá uma olhada 360° pra ver se tem gente conhecida. E sempre têm, ela conhece todo mundo. Bate a mão pra um, dá um sorrisinho pra outro até que uma levanta-se e vem ao seu encontro.
Uma delas é a Ana, a mais romântica. Enquanto se arrumava, por uns instantes ela se esqueceu do objetivo consumista da data e levou a coisa para o lado pessoal, bem na hora de escovar os cabelos. De repente a escova embolou-se e ela quase morreu de raiva por ter que desembaraçar o nó imenso e por ter que passar mais uma noite dos namorados solteira.
A outra é a Denise, a zen. Ela é jornalista, é a única que não tem filhos, que vive seguindo a corrente da vida, como ela mesma diz. A Ana a acha meio maluca, viajante demais, mas sai com ela já que a maioria de suas amigas está casada.
Escolhem ir para o Rio Vermelho, o bairro boêmio e alternativo da cidade, onde é possível encontrar pessoas de várias tribos e idades. Elas, que estão na faixa dos quarenta, não querem mais se arriscar a ir para um bar da moda e só encontrar a garotada que acabou de sair da adolescência.
Escolheram um barzinho tradicional e conhecido. Dão a sorte de encontrar uma mesa, bem no meio, na passagem para o banheiro. Ana que é, ou já foi, ou faz o tipo de uma moça comportada do interior sente-se desconfortável. Pede pra garçonete avisá-la assim que vagar uma perto da parede "pra não ficar muito exposta".
Enquanto isso, Denise coloca os pés na base da cadeira de Claudia, pede as bebidas e começa a cantarolar a música da Maria Rita que estava tocando.
A Claudia é da cidade, bem descolada, viajada e independente, acha a Ana até meio cafona, mas deixa pra lá. Mal se senta e já dá uma olhada 360° pra ver se tem gente conhecida. E sempre têm, ela conhece todo mundo. Bate a mão pra um, dá um sorrisinho pra outro até que uma levanta-se e vem ao seu encontro.
É a Beth, sua amiga há pouco tempo.
Uma mulher elegante, da mesma faixa de idade, que trabalha
muito, separada e com dois filhos que já são casados. Ela apresenta a Beth
às amigas. A Beth sorri rapidamente para todas e a Claudia diz: -Oi Beth!
Que bom te ver! Está bonita!
B- Bom também te ver Claudinha.
C- Como você está? Legal aqui né?
B- Menina, é legal... Isso aqui... - E muda bruscamente o tom: - Mas sabe desde que horas eu estou aqui? Desde às três da tarde, eu já deveria ter ido, mas não tenho o que fazer em casa...
Claudia a interrompe: - Quer sentar? - Olhando pro lado pra ver se achava uma cadeira. A Denise e a Ana também procuram, pois mesmo sem conhecê-la, sentiram vontade de saber mais sobre ela. As bebidas chegam e todas tomam um gole.
B- Não obrigada, eu tenho que voltar pra minha mesa. Eu não vou pra casa porque não estou gostando de ficar lá. Não quero ir. Pra quê? Pra assistir sozinha os mesmos filmes na TV, tomar remédio e ir dormir? As outras três olham cada vez mais interessadas. A Beth continua; - Quando eu sinto isso sabe o que eu faço? Eu tomo um whisky. Aí quando eu me dou conta eu já tomei dez! Vou para o Facebook e escrevo um monte de coisas. Escrevo até cansar e vou dormir.
Denise se controla para não rir do jeito espontâneo e quase cômico em que a Beth relata o seu drama.
B- Bom também te ver Claudinha.
C- Como você está? Legal aqui né?
B- Menina, é legal... Isso aqui... - E muda bruscamente o tom: - Mas sabe desde que horas eu estou aqui? Desde às três da tarde, eu já deveria ter ido, mas não tenho o que fazer em casa...
Claudia a interrompe: - Quer sentar? - Olhando pro lado pra ver se achava uma cadeira. A Denise e a Ana também procuram, pois mesmo sem conhecê-la, sentiram vontade de saber mais sobre ela. As bebidas chegam e todas tomam um gole.
B- Não obrigada, eu tenho que voltar pra minha mesa. Eu não vou pra casa porque não estou gostando de ficar lá. Não quero ir. Pra quê? Pra assistir sozinha os mesmos filmes na TV, tomar remédio e ir dormir? As outras três olham cada vez mais interessadas. A Beth continua; - Quando eu sinto isso sabe o que eu faço? Eu tomo um whisky. Aí quando eu me dou conta eu já tomei dez! Vou para o Facebook e escrevo um monte de coisas. Escrevo até cansar e vou dormir.
Denise se controla para não rir do jeito espontâneo e quase cômico em que a Beth relata o seu drama.
E a Beth segue; - Até que no dia
seguinte os amigos começam a ligar querendo saber como estou. E eu já nem me
lembro mais o que foi que eu escrevi.
Denise não aguenta e ri. Beth percebe e não se importa, pelo contrário:
B- Você sabe que este bar aqui é o bar da paquera do momento. Tem de tudo aqui, homem velho, homem novo, homem bom! Mas é homem bom, bom mesmo!
Ana puxa a cadeira um pouco mais pra frente.
B- Então outro dia eu encontrei um MA-RA-VI-LHO-SO, pense num homem bom. Pensou? Ana balança a cabeça afirmativamente rapidinho. - 37 anos, solteiro, bom papo, bonito, bom de tudo, sabe? - Olha para Ana pra vê-la concordar de novo. - Saímos e então passei quinze dias com ele, uma maravilha, aquele homem bom, tudo certo, ótimo, maior love, sintonia em tudo... Daí sabe o que aconteceu? Ana agora balança negativamente e mais devagar. - O homem SU-MIU! Do nada!!!!! E nem me pergunte que eu não tenho a menor ideia por que foi. Ana toma um golão de vodca.
Claudia diz: - Mas é isso Betinha, é que esses sujeitos não sabem nem reconhecer quando encontram uma mulher de valor....
Beth interrompe: - E eu, como não sou uma vadia, que no dia seguinte sai procurando outro, sabe o que faço? Sabe Cau, o que acontece? Claudia levanta a sobrancelha esquerda e espera.
B- Eu me fecho. Vou ficando cada vez mais desacreditada. Ana toma o resto do drink todo de vez. E a Beth segue: - Eu já estou até pensando em procurar uma mulher.
Denise pede mais uma bebida pra cada, o negócio estava ficando bom. As três entreolham-se e lembram-se que esse é um assunto recorrente, Denise até escreveu uma crônica sobre isso.
B- Porque eu não aguento mais a solidão. Muito além de um homem, o que estou precisando é de carinho. Ana recosta-se na cadeira. Denise digita a frase no celular. Claudia tenta convencer a Beth a se sentar, mas esta diz que vai ao banheiro primeiro. Na volta, passa direto em direção à saída do bar, esquece até de dizer tchau.
As três permanecem sentadas e por segundos congelam-se em expressões diferentes. A Claudia pensa que a ideia da mulher não é tão ruim assim. A Ana olha para fora, vê a chuva e morre de inveja de quem está em casa abraçada com um namorado e a Denise acha tudo fantástico e rebobina mentalmente os detalhes da história pra não esquecer. Nesse instante chega a segunda rodada de bebidas, Denise olha para as outras duas e puxa um brinde:
- A todas as possibilidades de interpretações dos papéis no grande espetáculo da vida!
Claudia abre o seu sorriso largo e a Ana mesmo sem entender muito bem, ergue o copo. Estava pensando em retocar o batom mas deixa para depois.
- Tin tin!
Denise não aguenta e ri. Beth percebe e não se importa, pelo contrário:
B- Você sabe que este bar aqui é o bar da paquera do momento. Tem de tudo aqui, homem velho, homem novo, homem bom! Mas é homem bom, bom mesmo!
Ana puxa a cadeira um pouco mais pra frente.
B- Então outro dia eu encontrei um MA-RA-VI-LHO-SO, pense num homem bom. Pensou? Ana balança a cabeça afirmativamente rapidinho. - 37 anos, solteiro, bom papo, bonito, bom de tudo, sabe? - Olha para Ana pra vê-la concordar de novo. - Saímos e então passei quinze dias com ele, uma maravilha, aquele homem bom, tudo certo, ótimo, maior love, sintonia em tudo... Daí sabe o que aconteceu? Ana agora balança negativamente e mais devagar. - O homem SU-MIU! Do nada!!!!! E nem me pergunte que eu não tenho a menor ideia por que foi. Ana toma um golão de vodca.
Claudia diz: - Mas é isso Betinha, é que esses sujeitos não sabem nem reconhecer quando encontram uma mulher de valor....
Beth interrompe: - E eu, como não sou uma vadia, que no dia seguinte sai procurando outro, sabe o que faço? Sabe Cau, o que acontece? Claudia levanta a sobrancelha esquerda e espera.
B- Eu me fecho. Vou ficando cada vez mais desacreditada. Ana toma o resto do drink todo de vez. E a Beth segue: - Eu já estou até pensando em procurar uma mulher.
Denise pede mais uma bebida pra cada, o negócio estava ficando bom. As três entreolham-se e lembram-se que esse é um assunto recorrente, Denise até escreveu uma crônica sobre isso.
B- Porque eu não aguento mais a solidão. Muito além de um homem, o que estou precisando é de carinho. Ana recosta-se na cadeira. Denise digita a frase no celular. Claudia tenta convencer a Beth a se sentar, mas esta diz que vai ao banheiro primeiro. Na volta, passa direto em direção à saída do bar, esquece até de dizer tchau.
As três permanecem sentadas e por segundos congelam-se em expressões diferentes. A Claudia pensa que a ideia da mulher não é tão ruim assim. A Ana olha para fora, vê a chuva e morre de inveja de quem está em casa abraçada com um namorado e a Denise acha tudo fantástico e rebobina mentalmente os detalhes da história pra não esquecer. Nesse instante chega a segunda rodada de bebidas, Denise olha para as outras duas e puxa um brinde:
- A todas as possibilidades de interpretações dos papéis no grande espetáculo da vida!
Claudia abre o seu sorriso largo e a Ana mesmo sem entender muito bem, ergue o copo. Estava pensando em retocar o batom mas deixa para depois.
- Tin tin!
Alô alô testando...
Não sabemos mais de onde somos, o que fazemos ou o que dizer.
No entanto a minha vontade de escrever não diminui.
Tive então uma ideia para esses tempos birutas;
A de escrever umas histórias que já presenciei, sonhei ou ouvi contar por aí.
Elas podem variar do grau verídicas - para aumentadas - até inventadas.
Algumas alegres e outras nem tanto.
Sem jamais revelar o nome dos santos, claro.
Vocês podem chutar, imaginar, tentar adivinhar, fiquem a vontade.
É um teste.
Se vocês gostarem eu continuo.
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