18 abril 2014

Menino da roça - A réplica

Ao ler o texto de uma amiga do face, que escreve lindamente com o coração, me emocionei e escrevi sobre a Semana Santa e lembranças da Roça. Ler e escrever sobre a paz e serenidade da roça antiga, de um tempo atrás, onde a tecnologia, energia, agua encanada e modernidades não tinha chegado: comer gostoso uma comida feita a fogão de lenha, panela de barro, agua de cisterna e filtro e pote de barro, fifó e candeeiro para iluminar, pinico em baixo da cama, telhado sem forro, bois mugindo, galos cantando, bichos atravessando os caminhos direto das matas virgens em redor das fazendas, um banheiro fora da casa! Oxe, é isto mesmo meu senhor! Cadê o povo da roça?

Quem viveu isto sabe o que escrevo, foi emocionante, revivi.

As coisas mudaram muito, tínhamos respeito pelos mais velhos e pelos costumes. Cada férias passadas na Roça, principalmente nesta época era uma alegria. À luz do candeeiro, a imaginação da minha criança, ouvia e vi, sons e imagens que apavoravam. Nesta hora, tremendo de medo, apelávamos para a Divindade, rezando fazendo o sinal da Cruz, e assim acalmar os medos.

Saudades do Sitio/Roça de Coração de Maria, ainda nosso, mais com o tempo, foi perdendo o romantismo, perdeu o "trovejo grande" voz do meu tio, contador de histórias, do cantar das rodas dos carros de boi na estrada. Saudade de uma tempo que tínhamos tempo de ouvi-las, contadas e recontadas por décadas, testemunho vivido de quem conta aumenta um conto: do caipora da mata, e do lobisomem na lua cheia, temíamos!

A noite na penumbra de uma luz de candeeiro, um cabideiro de madeira com chapéus, parecia uma assombração, que no outro dia, a luz do dia mostrava-se!

Os primeiros raios do sol pela manhã nas frestas das telhas, entrava e projetava nas paredes imagens das nuvens passando, com reflexos de cores, como um filme, o sol ia e vinha.

Dos pesadelo, daquele gordo que sentava na nossa barriga e não deixava respirar, a empregada dizia que se arrancasse o boné dele, ficaríamos ricos!
.... Ah, tentei mas não consegui derrubar, risos.

As intermináveis procissões com o Cristo eternamente carregando a sua Cruz, beijar a mão dele, era sagrado, isto junto com a multidão em fila na Igreja! A semana era Santa, para nós crianças, era muito esperada! Uma semana inteira sem aulas! Das brincadeiras a devoção, respeito e sobretudo muita reflexão e Paz!

Realmente, éramos instruídos a não falar coisas ruins, palavrões, se traquinasse não apanhávamos, bom né? nem castigos! Ficava tudo perdoado! Não podia judiar dos animais, não tínhamos notícias ruins, não tinha televisão..., não se podia fazer quase nada, um dia minha mãe mandou eu tirar a camisa vermelha que vestira! Me senti culpado, tudo em respeito a morte de Cristo!

Uma semana toda de reflexão, só quebrada pela noite de sábado com os versos de Judas, a queima, festas, etc. O mundano voltava!

Oh, que diferença! Que lacuna enorme, do mundano daquela época! Quase Espiritual hoje!!!

Estamos perdendo a humanidade, o que nos tem preenchido é notícia ruim sucessivas, do Ibope necessário pra Tv, é tão forte que a insensibilidade transforma os ávidos “humanos” por mais! Induz a preencher com algo ainda mais terrível, as lacunas da nossa insanidade.

O homem está doente. Neste mar de hostilidade e distanciamento do outro, teclando insistentemente na presença física amiga, buscando em outro lugar, o bem estar, a felicidade, isto porque não estamos mais aqui!

Somos avatares de nós mesmos.

Sempre tem uma ansiedade novinha em folha, trazendo notícias do mundo de lá! Todos com as mesmas informações, as mesmas frases as mesmas fotos! Fugindo pro virtual.... quantos roteiros de fuga, temos hoje? E a quanta insensibilidade levou? .... e a quanta solidão? Nunca na história da Terra, estivemos tão ligados/conectados e tão distantes uns dos outros!

A noitinha na fazenda quando a luz parecia perder pra sombra, o badalar dos sinos e o som da Ave Maria, trazia de uma forma melancólica, mas forte, a força pra enfrenta-la, mesmo sabendo que a luz estava perdendo para a escuridão, esta oração, nos dava conforto e segurança!

Hoje a luz está perdendo todo o tempo, os cabideiros da noite estão em maior números, espalhados a cada esquina, mesmo de dia! Não desaparecem! Se multiplicam! Quando abrimos os olhos: “vacilou, vacilou, vacilou! Passa ... passa , passa o celular!” Armados ameaçando, amedrontando, assassinando!!! Reparei que estes agentes do mal, só sabem contar até 3! Se a partir do terceiro “vacilou” ou do terceiro “passa” você não acorda pra realidade deles.... "atira nele"! Não está colaborando....foi!!!!

Pior que isto, nossos corações, pessoas do “bem”, estão escurecendo, a individualidade tornou-se absoluta, a insatisfação e a busca ansiosa e frenética de algo que não sabemos, só tem levado ao vazio, à depressão, que está ganhando a batalha, todos perdemos!

Precisamos urgente pisar de novo na terra, voltar pra o interior, reconhecer que o outro como espelho também faz parte de nós.

Vamos buscar “sentir” mais amor, em vez de teclar amor!

Vamos vivenciar abraçar, perdoar, chorar, visitar, olhar nos olhos e sentir a energia de estar. Falta Deus! Façamos o caminho de volta!

Muita Luz pra todos.

Silvio Romero
* Valeria, obrigado pelo seu lindo texto, ele me inspirou a escrever este.




4 comentários:

  1. Belo texto Val! Impossível não reviver com as suas lembranças!

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  2. Texto lindo! Fui longe!!! Voltei, no mínimos uns 30 anos... sem palavras...

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