Acredito verdadeiramente que o sucesso na missão de ser mãe
e pai acontece quando os seus filhos voam. Sejam eles de quaisquer espécie
animal. Driblar as ameaças do habitat, que no caso da juventude nos dias atuais
são muitas, fazem de qualquer rapaz um sobrevivente, e dos pais, uns vencedores.
No sertão, quando se pergunta a quantidade dos filhos de
alguém, costuma-se somar quantos foram paridos com quantos vingaram. O meu menino
vingou, graças a Deus. Chegou aos 18 anos sem maiores contratempos, sem drogas,
sem doenças, com apenas um ossinho da mão direita rachado em uma luta
greco-romana na escola, recuperado com algumas semanas de gesso.
Hoje acordei determinada a cumprir bravamente a missão de me
despedir, deixa-lo em seu novo apartamento e pegar o avião pra voltar pra casa,
tudo bem ensaiado mentalmente há dias. Mas ao vê-lo dormindo me soltei fácil do
script. Me lembrei dele no berço, há pouco tempo atrás. É, bem pouco. A
ausência do cabelo, retirado sem cerimônia pelos desconhecidos veteranos da faculdade,
deixou o seu aspecto mais frágil. Ao comentar com o meu irmão do ocorrido, ele
disse que aquela era uma experiência importante. Logo me veio à mente a tribo dos guerreiros
universitários paulistanos, cumprindo fidedignamente o ritual de passagem dos
recém homens integrados, anunciados ao mundo através das suas cabeças peladas.
Vai ver foi por isso que o meu rapaz não quis nem saber de boné.
Orei com toda a fé que acumulei até hoje por cada centímetro
do seu corpo. Sustentei as mãos por mais tempo sobre a sua cabeça com cuidado
para não tocá-lo. Ele não queria acordar, desconfio que estava fingindo não ouvir as
minhas fungadas. Pedi a Deus proteção para aquele pequeno lar, escolhido e
pensado em cada detalhe para o seu bem estar. Orei pela porta. Isso, pela
porta. Para que só entrasse ali o Bem, com força de B maiúsculo. Orei tudo que
eu sabia e que deu tempo até o táxi chegar. Pra conter o choro e poder
enfrentar o Sr. Vidal, o taxista, fui dura, me dei uma bronca. Mulher, você não
está olhando para o seu filho em um hospital ou em uma cadeia, pra não dizer
coisa pior. Não estou aguentando imaginar coisas piores agora. Me recompus
diante do respeito que se deve ter diante da saúde, da fartura e de tantas boas
promessas de futuro. Coisa feia é chilique. Sim, de toda a teoria eu sei, o
que não impede em absolutamente nada a saudade de doer.
Problema meu, ok. Ele não prestou vestibular em um raio inferior
a dois mil quilômetros de mim. Será possível que até no intercâmbio eu fui na
cola dele! Me larga, mãe - eu quase pude ouvir o seu pensamento enquanto eu o
beijava levemente. De repente ele tirou a mão debaixo da coberta e apertou o
meu braço, em seguida deu um beliscão em minha barriga, sem abrir os olhos. Era
a sua versão de tchau sem babaquice.
Funcionou. Consegui me virar e sair do quarto, passei mais uma vez o olho pela pequena sala, lavei e guardei um copo que estava à toa e fechei a porta, dando duas voltas na tranca por fora. Desci puxando a mala e consegui chegar diante do Sr. Vidal sem deixar uma lágrima descer dos óculos escuros. Era o mínimo que se poderia esperar da compostura de uma campeã.
Funcionou. Consegui me virar e sair do quarto, passei mais uma vez o olho pela pequena sala, lavei e guardei um copo que estava à toa e fechei a porta, dando duas voltas na tranca por fora. Desci puxando a mala e consegui chegar diante do Sr. Vidal sem deixar uma lágrima descer dos óculos escuros. Era o mínimo que se poderia esperar da compostura de uma campeã.
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