08 novembro 2010

Carrie

Houve um tempo em que a minha vida era bem calma. Era casada, não bebia, não saía a noite e não era muito vaidosa. Coincidiu com a fase da série “Sex and the city” em que as personagens viviam uma overdose do oposto disso; quatro mulheres em New York experimentando relacionamentos fulgazes em uma vida de festas e muito glamour.
O que mais gostava era do formato que a autora encontrou para apresentar cada episódio. Tudo que é vivenciado pelas quatro amigas é narrado pela Carrie, a personagem principal, através de crônicas que ela escreve para sua coluna no New York Times.

Na hora em que vi isso pensei: esta é a profissão que eu queria pra mim. Conseguir que as pessoas se interessem pelas suas experiências pessoais já é o máximo. Ganhar dinheiro com isso então é um sonho, coisa de filme.

Assim vivia a minha pacata rotina ao tempo em que sonhava com aquele monte de historias pra contar. Depois disso muita água rolou e eu vim parar aqui. Não assisto mais TV, não dá tempo. Não deu nem para assistir o segundo filme da série que por sinal soube que e péssimo, uma pena.

Estou ocupada com tantas experiências que apesar de não serem sexuais nem tão badaladas, me dão um prazer incrível. Simples, como a de escrever aqui para vocês sobre o que faço e o que penso.

Isso, atenção com o que você sonha. Pode ser que esteja logo ali a uns dez passos no seu futuro. Este bloguito não é nenhuma coluna do NYT, mas pra mim está ótimo. Ah, e é vida real, rs.

05 novembro 2010

Desafinada


É duro ser uma filha normal de uma mãe incrível em alguma coisa. A minha toca piano divinamente, seja com partitura ou não. Tem um ouvido apurado, é capaz de desenrolar também um acordeom e se deixar, violão. É afinadíssima e consegue saber se uma pessoa está fora do tom três segundos depois que ela abre a boca.
Esse é o problema. Toda vez que eu começava a cantar alguma coisa ela falava: - Vixe! E com careta. Ela sempre fez com que eu me sentisse muito linda, muito amada e muito desafinada.
Só senti pra valer o resultado disso quando cheguei na escola de teatro. Volta e meia tinha uma aula de voz ou uma cena com canto. E aí já era, travava, não saía de jeito nenhum.
E os testes? Lembro-me de ir para a seleção do filme "Dona Flor e seus dois maridos". Na época, eu tinha 18 anos, era morena, acho que tinha tudo pra fazer uma ponta, nem que fosse uma figurante subindo a ladeira com uma bacia na cabeça.
Passei da primeira fase, que era só uma entrevista. Deveria ter mais umas dez etapas, mas mesmo assim eu me animei. Só que, qual era a segunda? Isso:
- Agora você canta uma música. 
- Hã? (Hã é a minha cara, eu sempre tão lerda!!!) Estavam filmando o teste e tinha microfone. Câmera até vai, mas microfone... morro de medo.
Sabe o que eu cantei?
- Quero ver você não chorar, não olhar pra trás, não se arrepender do que faz...
Foi o nervoso. Esta era uma música que a minha mãe cantava. O cara me deu outra chance: - Canta um axé, minha filha!
E eu cantei lá qualquer coisa bem pra dentro, bem descrente e bem conformada em ser desafinada e assistir a minha provável carreira cinematográfica voar pela janela. E nem me lembro de ter alguém cantando no filme de D. Flor... Talvez Vadinho, bêbado?!
O final ficou triste não foi? Mas não é pra ficar, eu gosto muito da minha vida como ela é. E adoro, simplesmente amo ser anônima, um ponto assim qualquer na multidão.

Valeu lembrar disso para contar essa história e para quem sabe ficar mais atenta às minhas reações diante dos "talentos em desenvolvimento" dos meus filhos. E para me ajudar a escolher a nossa música, “Desafinado”, do João Gilberto. Já que não sei cantar, sempre que tenho a oportunidade peço que alguém o faça e dedico para ela: “Se você disser que eu desafino amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor. Só privilegiados têm ouvido igual ao seu, eu possuo apenas o que Deus me deu.” Bem satisfeita por não me saber cantora, mas por saber reconhecer um ou outro talento aqui e ali, como o de desencavar momentos para escrever histórias. E, assim, eu não canto, mas encanto. E ela toca no piano e canta a música da desafinada que ela não é, para que tudo se complete.




02 novembro 2010

Uma dispersa brasileira fazendo aula de improvisação teatral em inglês

É, para quem não sabe estou fazendo aula de "improve" aqui. Nem um textinho, nem um ensaiozinho. Tudo na "vera", stand up total, modelo se joga primeiro e pensa depois.

Game do dia: Cantar uma música em ritmo de rap sobre um tema que o professor dá na hora.
Para mim ele pediu uma mulher dizendo para o marido como se sentia em seu primeiro ano de casada.
No caso um partner de dezenove anos.
E mais uns trinta coleguinhas da mesma idade na platéia.
Com som, microfone e tudo.

Ele chamou para o palco grupos de oito em oito. Todos correram loucos pra ir logo. Nesses momentos eu me finjo de morta (para isso sou óótima atriz). Abaixo pra pegar uma coisa no chão, vou ao banheiro, me escondo atrás de alguém.
Mas o professor nunca me dispensa, aliás um amor de pessoa e muito competente. Ele me espera chegar, me deixa por último e quando eu estou achando que vou me safar, ele coloca todos os coleguinhas pra chamar o meu nome. Um fofo.

Achei que hoje ele fosse ter pena mas qual o quê, ele literalmente me arrastou.
Com medo de cantar (no próximo post vou escrever sobre isso), sem saber o que é rap e com um inglezinho meia-boca. 

Puxei o microfone de segunda. Parecia iniciativa, banana nenhuma, sempre que é pra sofrer eu sofro logo e fico livre. Arranhei lá qualquer coisa, o que salvou foi o ritmo, tentei fazer bem mais ou menos o movimento dos rappers, eles aplaudiram, são tão bonzinhos... Ufa! Que alívio, mais uma semana pra pagar outro mico.

Que nada. O teacher pára tudo e pede pra eu fazer de novo, agora em português. Hã? Como assim? Ele nunca tinha feito isso! 
Fiquei estatelada uns dez segundos (que no palco é uma eternidade) pra assimilar o pedido e pra puxar de Giselda e Mingo o idioma português. Juro que na hora eu esqueci. Eu vou pra lá tão programada pra tentar entender e falar inglês que quase tive um curto circuito.

Mas me joguei. Não tenho a menor idéia do que falei mas fiquei besta com a altura da minha voz e a energia do meu corpo. Me senti a She-ra de novo. Foi surpreendente até pra mim, imagine cara dos meninos assistindo. 

No final o professor pediu para que cada um se imaginasse fazendo este tipo de cena em outra língua. Elogiou a minha verdadeira voz, disse que me admirava pela coragem, que se eu arrisco pra isso eu posso fazer qualquer coisa.
Pelo menos foi o que eu entendi.

Só sei que fiquei pensando, sabe aquele exercício de treinar falar com a caneta na boca, daí quando você tira consegue articular bem melhor? Acho que é a mesma coisa, se eu posso falar, contracenar e até cantar um rap para a galera com a dificuldade que tenho no inglês, em português eu posso tudo.

É, estou me achando. Graças a um professor que sabe colocar dentro dágua uma peixa IF, à receptividade de uma garotada muito legal e a segurança que felizmente vai chegando com o tempo.

30 outubro 2010

Anseios

Sempre achei que o mundo poderia acabar na segunda feira seguinte. Eu conseguia até ouvir uma voz dizendo: "- Aproveite..." Achava que poderia ser a morte me dando um aviso prévio. Então era o jeito ir em todas as festas possíveis no final de semana. 

Sempre fui ansiosa, a minha mãe diz que eu não paro quieta e é mesmo. Sempre tenho que inventar um projeto novo, um desafio. Em todos os aspectos, isso me fez ter filho muito nova, casar cedo, inventar vários trabalhos diferentes e estar aqui nos States. Por isso sinto, ainda na fase dos 30, que já vivi umas três vidas. E paguei o preço disso, assim como as alegrias, multiplicadas por três foram as dores.

Como todas as outras, a moeda da ansiedade tem duas faces. A boa é quando gera estímulo, iniciativa, quando nos faz mover e realizar. A ruim é quando passa do ponto, quando antecipa algo para qual não estamos preparados, quando tira o nosso sono ou faz com que deixemos tarefas e pessoas importantes de lado para realizar só aquela meta. Equilíbrio é tudo.

Eu tenho sempre que me administrar. Agora mesmo, neste momento retardado de descoberta da internet, tenho passado mais tempo do que devo aqui. Mas pelo menos a fase da insônia passou. Espero que tudo vá se acomodando e eu coloque a vida virtual no lugar dela.

Começando agora, aproveitando esta manhã ensolarada de sábado para curtir meus filhotes, que são a minha melhor realidade. Já sou grandinha pra saber que quando voltar vocês vão continuar aí e que eu ainda tenho muito tempo para aproveitar. 

Porque a morte não vem me buscar tão cedo, pelo menos não nesse fds. Já me acostumei a passar das segundas feiras e esta voz já não tem tanto crédito. E no dia que eu for, o que vai menos importar é o que eu fiz por último. Vou puxar pra levar é um extrato de tantas experiências e aprendizados que tive por aqui.


29 outubro 2010

- Mãe, qual é mesmo a língua Dele?


Saímos todos pra jantar e na volta, eu já estava danada da vida porque errei a entrada e o retorno é longe, quando a minha filha perguntou:

- Mãe, Deus fala inglês, português ou espanhol?

Ela tem sete anos e ainda está se acostumando a este ambiente poliglota. Eu só tinha cinco segundos para formatar uma resposta verossímil:

- Ele fala todas as línguas, por isso Ele é Super, por isso Ele é Deus. 

Não sei se foi o que ela queria, mas ela se calou. 

Ele entende português, pensei. Ele sempre me escuta. Deve ter uma equipe em cada país pra ajudar. Ou talvez Ele só sinta as intenções e a energia, as palavras devem ter pouca importância para Ele. Ou quem sabe Ele entende mesmo tudo... segui assim  às voltas como carro e às voltas com as dúvidas de sete anos que existem em mim.



27 outubro 2010

I hate tests!

Tenho prova hoje. Não estudei quase nada de novo. Toda vez que olho para o livro enorme em inglês penso que tenho mil coisas pra fazer primeiro, como escrever aqui.

Nunca fui boa de prova, mesmo quando trata-se de um assunto que eu gosto como o de hoje: consciência, motivação e desenvolvimento humano. Acho sempre injusto ter que estudar os nomes dos caras e das teorias todas, as datas, o resultado de cada pesquisa. Sempre cai aquele detalhe que me passou batido, parece pegadinha.

A minha salvação sempre foram os trabalhos e as apresentações orais. Era só me oferecer um palquinho que eu até estudava, ou enrolava muito bem. Só que aqui eu travo ainda, não confio no meu inglês nem pra levantar a mão quando ela pergunta: "-Alguém aqui tem filhos?" Tenho medo que ela vá adiante.

Não me sinto à vontade nesta aula, na maioria das vezes em que ela pergunta ela mesma responde ou conserta a resposta dos alunos, eu que não me arrisco. Acho incrível aqueles professores que constroem a aula aproveitando as experiências dos alunos e desenvolvem o conteúdo a partir daí.

O pior é que nem estudo nem fico com a consciência tranquila. Antigamente era bem melhor, agora tenho essa tal auto exigência e responsabilidade. Isso me faz pensar mil vezes se devo dar seguimento ao curso no Brasil. Eu quero aprender psicologia sem as provas e as monografias, tem jeito?

-Ta, eu sei, eu sei, não existe almoço grátis, eu já vou, tô indo! Seu super-ego chato! 

Respira fundo. -Vamos lá Incrível falível, concentração, foco, go ahead. Now!!!

26 outubro 2010

Breathe!

Tem uma metáfora batidérrima, muito usada por qualquer palestrante (inclusive eu, no tempo em que era uma treinadora incrivelmente falível) que não saiu da minha cabeça hoje.

Aquela da máscara de oxigênio do avião (Ai, aguenta please, prometo que mais pro fim melhora). Que o certo é que você coloque a máscara primeiro em você, para só depois ajudar alguém. PS: Este alguém vale para qualquer alguém, inclusive para os filhinhos.

Cheguei ontem a noite de um descanso de tudo. De todas as minhas tarefas e de todos os meus papéis. Quatro dias da melhor terapia de todas: aquela do EU bem grande, do eu faço o que eu quero na hora que eu entendo.

Uma pessoa com filhos pequenos sabe bem do que estou falando. Se você não consegue organizar a sua vida, o seu trabalho e não tem  nem uma pessoa de sua confiança para deixar os  filhos para passar um fim de semana sozinha, com os amigos ou em lua de mel de vez em quando, cuidado! Pode estar arruinando o procedimento operacional padrão da mente sã e do casamento feliz.

Todos esses fatores são conquistas. Nós aprendemos a delegar, a dar e a merecer confiança e a negociar. Importantíssimo! Falo com propriedade de quem já deixou um casamento ir pro espaço também por este motivo. Me esmerando para ser uma mãe infalível e deixando meus projetos, meus amigos, meus programas e meu namoro no final da fila. Foi por pouco, por uma fração de segundos eu não virei uma songa monga incrivelmente babona e assexuada.

Hoje estou bem mais flex, como disse no post balance lá embaixo. E mais interessante. E bem melhor mãe.

Pensa comigo:
Meta objetivo: filhos felizes
Para filhos felizes: uma mãe realmente feliz. Não é  felizinha de faz de conta, de sorriso amarelo. Uma mãe que ri fácil, que vibra quando vê um carro rosa passando, que fala sonhando e realmente acredita que a vida vale a pena.

Olha que foram só quatro dias... rsrs

Mas tentando falar sério, a minha incrível terapeuta disse que os filhos captam o nosso inconsciente, não adianta fingir que eles não comem nadinha. 

Então não tem outro jeito:

- Atenção senhoras e senhores papais e mamães incrivelmente falíveis, no caso de despressurização do ambiente provocada pelo alto nível de stress dos novos tempos, máscaras de oxigênio de oportunidades restauradoras cairão diante dos seus narizes. Coloque-a primeiro em você, inspire-a profundamente, abasteça-se de prazeres próprios e só então ajude as pessoas que estão ao seu redor.

A sua saúde física/mental/emocional/psicológica agradece. E seus filhos também.