26 fevereiro 2015

Um novo eu


- Alô, Valéria? É a Gio, do livro. A revisora pediu pra fazer uma alteração, disse que “uma nova eu” está errado, que como o “eu” é um pronome pessoal masculino, o certo é colocar “um novo eu”.
- Jura? Mas não fui eu que fiquei nova? Quer dizer, não foi a eu, uma mulherzinha, que tentou criar uma nova versão de si?
- Hã? Não, você tentou criar “um novo eu” pra você. A não ser que você queira usar da liberdade poética do artista, e assim deixar errado mesmo.
- Não, pode alterar. Muda meu eu pro masculino. Quem sabe assim ele não fica mais objetivo? E com mais personalidade…
- Quem?
- O meu eu, a nova eu acabou de virar um novo eu agora, é trans.
- Ah ta, agora deixa eu ir que falta muita coisa, tchau!
- Tchau… … … euzinha, foi bom te conhecer.


20 dezembro 2014

Disfarce de Papai Noel


Há uns dias, uma amiga me viu arrastar a caixa da árvore de Natal e comentou: - Daqui a pouco não vamos mais precisar desmontar a árvore de um ano pro outro, do jeito que o tempo está passando cada vez mais depressa…
Era exatamente aquilo que eu pensava e não sabia, estava com tanta preguiça, por obrigação, só porque consta no manual da mãe perfeita em negrito que casa com crianças tem que ter árvore de Natal. Chamei as meninas pra me ajudarem mas ninguém topou, numa prova de como os adolescentes mudam de um ano pro outro. Pensei em intimá-las, mas sou fraca em forçar a barra pras coisas. Pensei em deixar pra depois, mas aquele trambolho já estava há uma semana no meio da área de serviço, e em mais uma piscada o Natal já teria passado.
Outro dia, que já deve fazer uns dois meses, cheguei a sentir antipatia dos shoppings nos empurrando as decorações cafonas e um espírito de Natal que não teve tempo pra descansar, não é possível. Não vi graça nas luzes da cidade, as propagandas da TV estão mais forçadas ainda e eu não estava a fim de comprar presente pra ninguém. Tem um livro que ganhei no ano passado que ainda não abri, os cartões ainda estão por cima de uma gaveta e a vontade de comer peru não chegou.
Respirei e perseverei, como nos finais das corridas, quando nos dá uma fraqueza e é preciso fabricar energia pra chegar no fim. E olha eu sou dessas que amam desculpas pra encontros, roupas bonitas e festas. Mas ter aquela trabalheira toda, e com garantia pelo menos um quilo a mais... Mesmo assim segui na empreitada, escolhi os melhores enfeites, que são os que foram feitos pelas crianças ou com fotos delas. Olhar para aquelas carinhas deu um aperto, eles estão tão diferentes! Torci para as luzes estarem ainda boas e remendando aqui e ali, salvei 60% delas, era o suficiente. Chamei as meninas pra ver. - Ah, legal! – Ficou bonito, mãe! - a outra disse, de passagem, com o celular na mão.
Pra tentar aumentar a graça do momento, e diminuir o pesar que dá quando percebemos a vida passar muito rápido, comecei a enumerar  o que realizei este ano. Muito, até para uma hiperativa zen ansiosa proativa, reconheço. E agradeço. Num instante os 60% de luzinhas recicladas brilharam um bocadinho mais. Fui lá, estirei os galhos e dei mais uma desamassada nos laços. Coloquei a árvore mais pra frente, mais pra fora, e um pouco mais pra perto de mim.
Assim senti o primeiro sopro desse tal espírito natalino de 2014. Ele não passa de uma oportunidade de exercer a gratidão e a união, disfarçada num figurino bem brega. E não vem mesmo, não adianta, da TV, dos presentes, das árvores, nem das luzes na rua. É um estado de consciência, e como os outros não precisa de nada, nem motivo, nem companhia. Pode chegar em nossos corações em qualquer época do ano. Mas, vamos reconhecer, reunidos em família, com uma mesa cheia de delícias e cercado de vermelho com luzinhas brilhando, fica melhor ainda.

01 dezembro 2014

Meus dois vestibulandos


Depois do tempo mínimo necessário pra saber se o negócio tinha chance de vingar, estava na hora de contar pro filho da existência do novo namorado. Especialmente porque os dois moram na mesma cidade e eu estava sem ter como explicar as minhas desaparecidas. Imagina, logo a mãe.
Pensei em algo que eles tivessem em comum, esperei uma hora calma, enquanto ele lanchava, olhando pro celular, lógico, pra puxar o assunto:

- Filho, sabia que eu estou namorando?
- Hum - essa é a palavra que mais ouço nos nossos diálogos, não sei precisamente qual é o significado, mas pelo menos ela indica que ele me ouviu.
- Pois é, depois de tanto tempo né? Porque você sabe, não tá fácil. Primeiro eu pensei que fosse pela má qualidade dos homens, sabe?
- Hum.
- Lembra que eu comecei até a meditar e a orar pra mudar a frequência, melhorar a energia que eu estava emitindo?
Dessa vez não teve "Hum", só a mordida num biscoito de chocolate.
- Então, depois eu vi que não eram eles, eu é que estava ficando problemática...
- Pciso stdá! - ele disse, levantando.
- Hã?
- Preciso estudar Val!! - Ele me chama assim, vê se pode.
- Ah ta. Olha, ele vai fazer o mesmo vestibular que você no domingo!
Ele parou, engoliu sem beber o suco, e, pela primeira vez em dois dias, olhou pra mim.
- Quantos anos ele tem, Val? - dessa vez ele articulou. Fiquei até emocionada, fazia tanto tempo que ele não me fazia uma pergunta!
- 23, por que? Achou que fosse da sua idade? - Não resisti, ele ficou mais branco do que é.
- Brincadeiraaaaaaa!!!!! Ele tem 42, inventou agora fazer outra faculdade.
- Hum - Dessa vez com uma piscada de olhos demorada, um gole no suco, e eu quase pude ouvir um suspiro.

O alívio foi tamanho que ele até perguntou pra qual o curso, e depois da prova, como foi o resultado do digníssimo. Eu achei a maior graça da situação, torci dobrado no dia, quase copio e colo a mesma mensagem de boa sorte no zapzap. Acompanhei o resultado e para essa primeira fase, parece que os dois passaram. Coisa boa é estar cercada de homens inteligentes e nem um pouco acomodados.
E o melhor, espirituosos. Que bom, porque com bom humor fica bem mais fácil de levar o amor.


30 novembro 2014

Uma bicicleta por uma boa lembrança


Era um domingo de março de 1992, em Vitória da Conquista. Já tinha combinado tudo, o Deda iria emprestar a pampa. Ele me pegou em casa com a Mó e antes das 10h passamos de casa em casa acordando o pessoal. Todos indevidamente em pé na carroceria do carro, na época em que cinto de segurança só servia pra cair no chão e atrapalhar na hora de fechar a porta. No som, o axé que ainda era uma criança, entrava com simpatia em qualquer domingo de sol. Assim passamos o dia do meu 17º aniversário, de bar em bar, subindo e descendo da pampa, eu pagando as contas com uns cheques que eu não tinha a menor ideia de como iria cobrir. Isso era um problema para a segunda feira. Sim, seria o dia seguinte, mas inebriada pela cerveja que era vendida livremente, me parecia que teria tempo suficiente pra arrumar um trabalho, ganhar na loteria ou receber uma verba extra muito merecida pelo meu dia. Eu dizia: - Deus proverá! – assim, na maior cara de pau, como se Deus fosse se importar em bancar a minha farra. O tour acabou no clube da AABB da cidade, num show da banda Mel, com todos girando com o dedo pra cima, cantando: “Vou dar a volta no mundo, eu vou, vou ver o mundo giraaaarr…” Em uma dessas voltas, a Nanda arriscou um passo mais ousado e acabou rompendo o ligamento do joelho. Mas isso ela só apurou depois. Antes, na segunda feira que teimou em chegar, na ida para o colégio, ela teve uma idéia brilhante:
     -  Nega, cadê a sua bicicleta?
Uma bicicleta branca meio cafona com cestinha, mas novinha. Quem precisa de uma quando se tem amigos que dirigem? Desta forma, a loja de bijuterias do tio Fernandão, o pai dela, abriu as portas com uma bicicleta no passeio com um papel oficio grudado escrito: R$250,00. E antes do banco fechar, o depósito foi feito, o valor batia incrivelmente com o total dos cheques que eu tinha passado.
Acho que na minha vida quase tudo aconteceu meio assim, como se tivesse uma equipe no céu que me protegesse. E protegesse os meus amigos também. Todos dirigiam sem carteira, mas não me lembro de uma blitz ou batida, de alguém se machucar (só do joelho de Nanda, mas aí foi ela sozinha e a pé mesmo). Nós nunca fomos assaltados, nunca nos metemos em uma confusão, nunca nos ofereceram drogas, além da bebida e da lança perfume na micareta, sem também, graças, piores consequências.
Não posso me lembrar da equipe do céu e esquecer da equipe da terra, liderada pelos queridos Tio Deri e Tia Yara, os pais de Mó e Deda, que davam um jeito de estarem em todas as viagens e se tornarem nossos amigos. Eles nos hospedavam, nos acolhiam e nunca perdiam a oportunidade de nos dar um bom conselho.
Nas voltas do mundo desses quase 23 anos, muita coisa mudou. Meu filho tem 19 anos, carteira de motorista, mas nunca me pediu o carro. Não bebe e prefere conversar com os amigos pelo whatsapp. Ele não sabe nem como funcionam os cheques, e é incomparavelmente mais bem comportado do que eu. A Banda Mel saiu da mídia e o joelho da Nanda nunca ficou bom, até hoje ela sempre diz que tem mais uma cirurgia pra fazer. Entraram os cintos de segurança, a lei seca, o crescimento da violência, e muito mais do que nos protege e do que nos impede.
Outras coisas não mudam. Desde outubro viajo pelos aniversários de 40 anos destas mesmas amigas, em encontros cheios de crianças, músicas daquela época e muitas risadas de histórias como essa. Uma é designer de luz e se casou com uma mulher, a outra é médica, foi morar em Ilhéus e já pode se candidatar a vereadora por lá, de tão querida. Tio Deri e tia Yara seguem animados entre nós nas festas. Tem uma amiga que encalhou, mas não desiste, está tão metida agora que emagreceu, que faz de cada suspiro um flash pra postar no Face. A outra se casou com um mato grossense, e eu fui parar em Campo Grande pra sua festa, e aproveitamos pra tomarmos uns belos banhos de cachoeira e conversarmos de noite na cama com a luz apagada até o sono chegar. Sem maridos, sem filhos, só nós, como antes, como somos.
Não nos faltam assuntos e nos sobram cumplicidade, confiança e intimidade. Nós não ouvimos as nossas estórias, nós estávamos lá. Presenciamos os vestibulares, as formaturas, as desilusões amorosas, os bebês chegando, as barras, as conquistas, as mortes e os recomeços. Fomos madrinhas de casamentos umas das outras, madrinhas dos filhos também. Esses meninos de todos os tamanhos, sexos e jeitos diferentes nos provam, a cada ano, quando se juntam, que filhos de grandes amigas, amiguinhos são.
Já nos despedimos centenas de vezes, e a vida nos mostrou que não importa quanto tempo passe, na hora do reencontro é como tivéssemos pulado pra fora da pampa no dia anterior. Os tamanhos dos nossos quadris não são os mesmos, apesar do esforço, mas os sorrisos são. Atrás das mães, das profissionais, das cicatrizes de cada uma e de todas as capas que precisamos colocar pra sobrevivermos, os risos frouxos nos denunciam. Eles entregam as meninas meio fora da regra, espontâneas, farinha de um mesmo saco conquistense, fascinadas por emoções genuínas, tão amorosas, e talvez por isso, tão abençoadas por Deus.

12 novembro 2014

Sumiço com propósito


Estranho não é sumir.
Estranho é ficar parado, fazendo a mesma coisa, até você mesmo perder o interesse por você.
Eu sumo pra aparecer ali adiante.
Eu não sei porque a vida nos dá essa imensidão de possibilidades pra escolher. É perigoso, exaustivo, mas também delicioso tentar descobrir aonde podemos chegar. Eu vou, e quanto mais eu ando parece que a minha capacidade de fôlego aumenta. Pego tudo o que vejo e coloco numa espécie de carrinho de mão. Olho para trás às vezes, em momentos em que me permito parar para descansar de cavar o novo e sinto saudade, que quase sempre vem colada com tristeza. Não consigo ainda desatar essas duas. Mas não dá pra descobrir isso pensando, tem coisas que só aprendemos no dia certo, então é preciso seguir.
Hora de abastecer. Estudo escrita, roteiro de filmes! E vivo filmes, sem parar. A combinação me parece perfeita. Só não está dando pra ler e pra assistir os filmes dos outros, tão necessário, mas deixei essa parte pra quando o cansaço chegar. Claro, preciso de algo pra fazer quando parar. Por enquanto não dá, a vida está me tomando todo o tempo agora.
Leva muito tempo ser personagens, ver personagens, incrementar personagens, criá-los e recriá-los.
Tomara que eu consiga,  pari-los todos em estórias, com os seus jeitos tortos, seus olhares dúbios, seus desejos preguiçosos e tudo que destoa, que não faz sentido, que desmente os seus discursos, que deixa escapar as fraquezas que os tornam quase humanos.
Estou amando todos eles. Tudo que mais odeio nas pessoas estou amando nos meus personagens. Porque eles revelam as hipocrisias que nós, pessoas, vivemos. Natural, possível e livremente! Porque eles ilustram a ingenuidade para amar que nós, pessoas, não desistimos de ter. Porque eles nos faz rir das tragédias e chorar nas comédias do cotidiano da vida de toda a gente. Porque eles nos fazem sentir o que deixamos passar desapercebido.
Agora que o primeiro semestre do curso já foi, que a mudança já foi,  que a lista interminável de pendências foi pro fundo da gaveta (pra ser irritantemente correta e não dizer pra onde elas foram realmente), e que a ansiedade só aumentou, estou voltando pro blog, esse nosso canal. Porque sinto muita falta. Porque a IF tem o dom de me fazer sentir um pouco menos ordinária. Ela é a melhor parte de mim, sou eu mais colorida, como devem ser os personagens.
Me permitam trazer umas novidades, pegar uns palpites. Mesmo sabendo que nunca dá muito certo, vocês gostam das conversas de mão única, em que derramo todas as minhas alegrias, confusões e lamúrias de uma vidinha incrivelmente comum.
Dá tudo no mesmo! As minhas histórias e as dos personagens que saem de mim, inspirados em todos nós. O importante é escrever, continuar, qualquer coisa, em qualquer formato. Se assumir falível e assim dizer sem medo. Retornar sempre, adiante, depois das pausas necessárias.


01 agosto 2014

Muito bem acompanhada

Nos domingos a noite eu sempre sinto falta de um namorado. Nos dias dos namorados sinto muita. Sinto falta quando saio com os casais de amigos, e também sinto quando vejo garrafas de vinhos no supermercado.
Mas raramente sinto nas sextas, dificilmente na rotina da minha casa e nunca, nunquinha quando viajo de férias com meus filhos. 
Eles estão ficando cada vez mais legais. Fazem as próprias pesquisas de onde querem ir, me chamam atenção pra eu não dormir no ponto, contam piadas, brincam e brigam o tempo todo, posso estar mais relaxada floreando demais as coisas, mas me parece que até as brigas estão ficando um pouquinho mais maduras. Os nossos quartos de hotel viram festas de pijamas, primeiro tem uma disputa pra ver quem fica com quem, e ainda há uma escala para dormir com a mamãe e ficar ao meu lado no avião, é, eu ainda estou com essa bola toda.
Quantas experiências inesquecíveis tivemos, nós cinco. Acho um privilegio viajar com a minha mãe, poder curtir vitrines bonitas com ela pelo mundo sem pressa. Ouvi-la tocar nos pianos que encontramos pelo caminho, poder deixar os meninos com ela pra dar uma escapulida e depois comentarmos a vida nas poltronas do avião.
Demorou pra eu entender que a minha família não tinha um buraco que deveria ser ocupado por um homem, a minha família é integra como ela é. Com a participação especial de dois homens bacanérrimos, o meu filho e o meu irmão que nunca viaja com a gente porque alguém tem que trabalhar nessa família!
É estranho para uma ex super ansiosa fcar tranquila, sentir como se tivesse ainda outros 40 anos para viver, numa boa. Sem remédios, sem nunca ter fumado nada, sem terapia. Simplesmente acalmei. Sei que estes momentos com essa galera que saiu de mim estão contados, eu tenho que aproveitar. Algo me diz que por ter começado a vida cedo demais ainda vou ter tempo de casar de novo sem filhos por perto, mais na frente. E se… Ah, e se! Se não tiver, tudo bem. O que vivi ate agora foi tanto que tudo bem. Tudo bem se eu for e se eu ficar. Nada mais importa, curtir a vida com meus filhos é hoje o meu melhor programa. 


Back home

Chegamos no aeroporto de Los Angeles e peguei o primeiro ônibus que vi para uma loja de aluguel de carros. Pensando que não devia ter ouvido meu filho que disse que não precisava de reservas. Só restou um carro  que coubesse nós cinco e mais as nossas cinco malas enormes, uma caminhonete grande 4X4. Rapidinho subi na carroceria, puxei as malonas, entrei e caímos na estrada. Eram cinco da tarde, no meu destino um por do sol alaranjado. Coloquei uma musica qualquer na radio e estava vivendo um momento perfeito.
Estávamos de volta a estrada que percorremos tantas vezes, reconhecendo as placas no caminho, a vegetação do deserto, chegando cada vez mais perto da nossa família americana.
Foi muito bom reencontrar as primas, logo no primeiro happy-hour no restaurante mexicano, falamos dos quatro casamentos que aconteceram nesses dois anos que estive fora, nos dois bebes que nasceram, das mudanças e dos novos planos. Naquela mesa entre tacos e margueritas, só eu não multipliquei. Enquanto as famílias delas cresceram com noras, genros e netos eu só consegui parir uns textinhos.
Foi muito bom ir fazer o cabelo no salão que eu conheço, saber onde encontrar o que queria comprar, ver as amigas brasileiras, me esparramar no sofá da casa da prima, me arrumar pra sair pra jantar com a minha tia mais vaidosa, comer no restaurante japonês numa mesa enorme. Me senti em casa! Todos nós, mesmo sem vontade de voltar a morar lá. O que conquistamos ao conhecer e conviver naquele lugar com aquelas pessoas é nosso e pra sempre. É realmente maravilhoso ter um home nos states pra poder voltar.