31 março 2013

Filho, pode vir tranquilo que vai dar tudo certo.


As crianças são imprevisíveis. Hoje a minha filha teve uma inédita de dor de dente. Juntou com uma certa fome e uma noite mal dormida e o resultado foi digamos... explosivo. A dor virou um enjôo que depois se transformou em falta de ar. Ela chorava e gritava sem saber o que fazer com aquilo. Eu mantive a calma, cancelei o almoço de Páscoa para o qual estávamos todas a caminho, dei um analgésico para ela, deixei que ela dormisse um pouco, quando acordou ela comeu e por fim entrei no box e dei nela um banho daqueles. Pronto. Inexplicavelmente o dente parou de doer, o enjôo passou e o ar voltou.

Estava enxugando o seu cabelo quando aproveitei para puxar o assunto:

- Está melhor?
- Hum hum. - repondeu afirmativamente e baixinho.
- E o que foi mesmo que você teve?
- Doeu muito mãe, muito mesmo!!
- Sei, eu imagino. Mas será que o sono e da fome tiveram alguma coisa a ver com isso?
Ela parou para me olhar e suspendeu as sombrancelhas sem ter uma boa resposta.
- Filha, imagina aí se toda dor ou nervoso que eu tiver eu sair gritando por aí com todo mundo, desesperada...
Ela respondeu de pronto:
- Impossível mãe, você é muito cheia de juízo pra fazer isso.

Parei. Agradeci. Senti um orgulho danado ao perceber como ela me vê. O "juízo" nesse caso representa a segurança, algo que nenhuma criança pode viver sem... Blábláblá, eu e meus conceitos, pensei depois, tem horas que nem eu me aguento. Que saco ter que ter juízo. E fui então avaliar o preço desse suposto elogio.

Acho que ninguém tem a idéia do tamanho da responsabilidade de um filho até ter um. Claro que não me refiro aos pais que mantém seus filhos "à distância", estou falando de pai e mãe full time. Aqueles que todos os dias se asseguram que os filhos se alimentem de forma saudável, acordem e durmam no horário, vão para a escola, façam as suas tarefas, pratiquem esporte, divirtam-se, respeitem os outros, sejam honestos, saibam lidar com as suas emoções, estejam em segurança e ainda saibam valorizar e agradecer a Deus por todas as oportunidades que têm, isso no mínimo.

Agora imagina quem tem três e que pelas voltas do destino ainda teve que assumi-los sem um marido, ou pelo menos, um ex-marido. Ninguém programa isso para a vida, não foi assim o desenho da família que eu fiz na infância. Tudo bem que eu conto com uma equipe turbo de apoio, liderada por minha mãe, meu irmão e pela última babá perfeita existente na Terra. Mas mesmo assim as decisões são minhas, quem tem que colocar todos os limites e garantir todos os tipos de suprimentos para toda essa galera sou eu.

E é exaustivo, quase enlouquecedor e por um triz desesperante. E lógico, maravilhoso na mesma intensidade. Bastou que eu me lembrasse da conversa que tive com meu filho ainda na barriga para eu entender. Eu com dezenove anos e a minha lista de promessas para ele, foi mais ou menos assim:

Filho, pode vir tranquilo que vai dar tudo certo. Nunca irá faltar amor. Vou te proteger e cuidar de você pequenininho como quem cuida do seu maior tesouro. Vou te ajudar a andar, vou pensar nos melhores conselhos para você. Melhor que isso, eu vou buscar exemplos, eu vou ser um bom exemplo, é isso. Prometo comer mais frutas para que você as coma também. Prometo que vou tratar melhor os mais velhos, respeitar o sinal e os pedestres, vou parar de comprar CDs piratas e de jogar lixo no chão sob qualquer hipótese. Vou falar mais baixo e corretamente para que você tenha um bom vocabulário. Vou ler para você para que com a minha idade você tenha lido muito mais livros do que eu. Vou procurar ter pessoas boas a nossa volta, vou buscar a serenidade e a sabedoria para que você se sinta seguro. Vou cumprir todas as promessas que eu te fizer. Vou fazer exercícios para que você saiba do bem que eles fazem. Vou parar de falar palavrão. Vou melhorar o meu inglês para que você já se familiarize com uma nova língua, vou colocar músicas de qualidade para você ouvir. Vou te levar nos museus que nunca fui, vou aprender umas coisas novas para te ensinar. Vou fazer o bem para que você tenha orgulho de mim. Vou, vou, vou...  Deixa estar, eu vou ser melhor, eu te prometo.

E assim foi. E assim continua sendo. Eu, buscando ser melhor para eles, vou ficando melhor para mim.

A falta de liberdade, o cansaço e o peso dos ombros da responsabilidade se dissipam quando se deparam com as infalíveis declarações de amor dos cartões de aniversário, os presentinhos feitos na escola para o dia das mães, os abraços que me derrubam, a saudade que eles sentem a todo instante os elogios, sejam os escancarados ou os camuflados como o de hoje.

E mesmo quando isso passar, porque eu sei que daqui algum tempo não vai ter ninguém aqui, cartãozinho nenhum, nem tanta saudade ou tantos abraços, e é assim que tem que ser. Mesmo assim eu vou contar com esta mulher "cheia de juízo" que me tornei graças ao meu imenso amor por eles. Que bom, porque eu gosto mais dela a cada dia.

26 fevereiro 2013

Meu Amigo Mago Magnético Branco


Já falei para vocês do meu amigo mago magnético branco? Ele também pode ser o cão planetário branco, depende da época do ano de acordo com o calendário Maia. Ou o Cau Trigo, o seu nome diante do "povo do livro", que é como ele chama essa tribo aqui. Ele também é o grande lobo que habita a "toca do lobo", nome dado ao espaço em que ele trabalha para "expressar a verdade do seu coração com afeto e construindo pontes com os companheiros de destino". Essa é a sua missão e é nesse lugar que ele nos oferece momentos e encontros transformadores.
E para isso não precisa muito. Ontem estive lá, ele me convidou para almoçar. É sempre uma alegria estar perto dele. Começamos falando sobre o xadrez, ele é mestre em xadrez. Também ensina Tai Chi Chuan na praia cedinho. Toca tambor, maraca e canta para despertar nossos sentidos. Dá massagem ayurvedica e é um escritor que não para de estudar, perceber, criar e escrever. Aliás, é o maior incentivador e exemplo para que eu escreva o meu livro.
Para o almoço, ele me serviu arroz integral feito em uma panela de barro e pupunha, um fruto saboroso que, segundo ele, é tão nutritivo que bastam apenas três deles para os índios enfrentarem uma jornada inteira de caminhada. Detalhe, a pupunha foi ele mesmo que plantou em sua fazenda há quinze anos junto com o abacate e a banana da terra que o alimentou naquele dia.
Ele enfiou as pupunhas no arroz quente para que tudo ficasse na mesma temperatura, colocou em uma cuia, enfiou uma colher de pau e me entregou. Sentamos no chão para comer e, tenho que confessar, respirei fundo quando ele disse que não tinha colocado condimento algum na comida. A única coloração vinha do laranja forte da pupunha. Mas daí ele foi buscar o "sal de maras" do Peru (sim, não poderia ser um sal comum), que deixou tudo muito bom. Comemos enquanto falávamos de livros, de música, de astrologia, de minhocas e de relacionamentos.
Ah, e de cores. Ontem eu soube que segundo José Arguelles no livro "O encantamento do sonho", o vermelho inicia, o branco refina, o azul transforma e o amarelo amadurece. Adorei isso. Adoro o seu jeito de falar sem parar tentando compartilhar ao máximo tudo que sabe. Muitas vezes um assunto entra pelo meio do outro e eu deixo ele viajar antes de perguntar qual era a conclusão do primeiro. E com Cau eu descobri que nunca há conclusão, há sim celebração para fechamentos de ciclos e aberturas de outros. Cau vibra quando consegue dormir quatro horas em uma noite, ele diz que tem tanto a fazer e o tempo urge. Outro dia ele disse "- Por Deus como eu sou feliz! Não posso suportar isso sozinho! Tenho que compartilhar o que estou sentindo com os irmãos do caminho! Vivo o momento mais intenso da minha vida!! HO!"
HO Cau! Que privilégio partilhar a sua vida! Impossível não se contagiar com seu entusiasmo e a sua sensibilidade.
Hoje, em sua escrita das 4:49 da manhã, ele me presenteou com a letra da sua música preferida de Coco; "VER TENTE": "Não te entregues tão facilmente ao incipiente avanço daqueles que carecem de força. Pelo contrário, remote diariamente sua própria corrente pacientemente. Reinstale a vertente mansamente. Nutra-se dela! Não permitas que ninguém opaque o brilho do seu diamante! Enforque-se antes de pertencer à horda dos imitadores triunfantes!"
E no meio dessas linhas e de pelo menos uns trinta outros assuntos, ele se desculpou pela falta de requinte do almoço. - Ora Cau, requinte para mim é ser de verdade! - respondi. Pois sim! Se o que mais adoro nele é a sua autenticidade! Pertencer aos imitadores triunfantes? Jamais! 

Ontem ele me disse também que, segundo a sabedoria chinesa, o melhor momento para se plantar uma árvore foi há 20 anos. O outro é agora. E assim como Cau se alimenta hoje das pupunhas que plantou, acredito que cada um tem os amigos que merece. Os que foram plantados e regados ao longo do caminho e que sintonizam com aquilo em que você acredita. Que vibram na mesma frequência. Que bom!!! Que honra para mim contar com a sua amizade, meu querido mago magnético branco!!

22 fevereiro 2013

E aí? Vai encarar??



Você já teve vontade de dar uns socos e uns chutes por aí?

Hoje eu acordei ansiosa por isso. Sei lá se foi TPM, stress, piti ou tudo isso, eu estava mesmo injuriada. Geralmente eu sou uma mulherzinha até calma mas de vez em quando dá uma raiva! Raiva de alguém, do trânsito, das escolhas erradas e das burradas que faço sem parar.

Mas como pra quase tudo nessa vida tem jeito, lá fui eu atrás de um. Boxe, é isso! E tinha que ser hoje. Quem vê essa pessoa meiguinha não diz o quanto sou determinada. E quando chega a hora de bater é pra valer, tenha medo! Consegui um professor bacana, desses lutadores que aguentam o tranco. E ainda bonito. Professores bonitos dão ainda mais estímulo.

Mal pude esperar, não sei pra que tanto alongamento e aquecimento. Ele queria me ensinar os golpes certos, onde colocar o pé, como manter a guarda, tanta coisa! E eu louca para enfiar as mãos nas luvas e bater, bater muito, do meu jeito, de qualquer jeito.

Até que chegou a hora: jab, direto, cruzado, gancho, upper, jab, direto, gancho e cruzado, tudo de novo, inúmeras vezes. O suor começou a descer e eu já pedi: - Posso chutar? - Ô, você falou que queria boxe, eu só estou dando boxe. - Ah, é mesmo, boxe não tem chute. Desculpa então, pode vir outra luta, vamos de kick boxing, muay thay, capoeira ou o que você quiser mas deixa eu chutar por favor!! !

Professor de luta já não gosta de "sangue no olho",  ele mandou ver: lateral, joelhada, martelo, jab, direto, cruzado, joelhada de uma perna, a outra!!! Aaaaahhhhhhh, que delíciaaaa!!!!! Joelhada então é o máximo!!! Mandei ver enquanto girava com ele na sala descarregando todas as minhas frustrações nos seus protetores.

Faz tempo que eu não sinto algo tão eficiente. Tem quem vá para a terapia, outros para as drogas e remédios, uns danam a comer, há os que descontam em quem não tem nada a ver e um monte só se lamenta e adoece. Eu corro para resolver e quando correr não resolve, eu bato. Brincadeira, eu estou mesmo virada do avesso hoje, claro que tudo tem seu momento, tem a hora do recolhimento e do choro. Terapia então eu fiz por muitos anos, remédio pode ajudar muito, cada caso é um caso. Mas uma hora a gente tem que reagir, extravasar, e para isso queridinhos...

Pancada! No saco, no Bob, no aparador, no travesseiro. As minhas mãos estão tremendo até agora mas mesmo assim eu recomendo. Me sinto calma e feliz e de quebra deixei por lá algumas centenas de calorias. Já marquei a próxima aula, cheguei para ficar. E o professor gostou, quer me levar para lutar com as outras alunas dele, vai ser o jeito encarar.

E no próximo mês vou fazer uma vivência para aprender a meditar. Pode rir, essa é uma pessoa que tenta. Contarei tudo aqui, lógico. Vamos experimentando e levando, vencendo umas fases, curando umas mazelas e nos preparando para os novos desafios que nunca param de chegar. Reunindo recursos para estarmos prontos para o que vier. Só não pode é parar. E o Bob que se cuide!

17 fevereiro 2013

Prestígio, poder e dinheiro



Chique para mim é ter assunto. E assunto é o que não falta com a minha amiga Help. E nesses dias, conversa vai, conversa vem, ou que subiu e que desceu, como ela diz, falávamos sobre a diferença entre ter prestígio, ter poder e ter dinheiro.
Sobre o dinheiro não precisa-se falar muito. Uns tem mais, outros menos. Dinheiro compra muitas coisas, manda buscar outras mas não faz pessoas felizes. Dinheiro dá poder, mas não dá prestígio.
Poder uma pessoa pode ter com sorte, com certa perseverança e com algumas habilidades. Um cargo pode dar poder, um status, um casamento. Uma carinha e um corpo bonito também. Uma oportunidade em um grande meio de comunicação, o que dizer do Big brother que há anos insiste em nos empurrar goela a baixo aquele show oco de fabricação de celebridades? A celebridade nada mais é do que alguém com certo poder por um motivo qualquer por um curto período.
Sim, o poder é passageiro. É diferente do prestígio. O prestígio vem nos nossos genes e é desenvolvido por anos, décadas. Ele é fundamentado nos valores e lapidado pela educação e exemplo dos nossos pais. Ele é aperfeiçoado com a leitura, com as escolas e com a convivência com pessoas sensatas. É a colheita de quem planta e rega por muito tempo as amizades sinceras. É resultado de um trabalho e muita dedicação e de uma sequência de atos baseada na retidão. Ele é testado a todo instante, em um país que começou errado e segue em uma cultura de cada um por si e salve-se quem puder. O prestígio vence essa correnteza, a pessoa com prestígio faz o que é certo em todas as hipóteses. O prestígio é a melhor herança que podemos deixar para os nossos filhos.
Percebi isso muito cedo. Aprendi o que quer dizer orgulho, em sua melhor versão, desde que me entendo por gente. Gostava de ver a reação das pessoas quando eu dizia de quem eu era filha, neta ou bisneta. Sorrisos e portas se abriram para mim, o que me faz pensar que o prestígio dá certo poder, do mais nobre, daqueles que o valoriza. Assim acontece não porque meus pais e avós tiveram muito dinheiro, e sim porque eram bons profissionais e pessoas de bem. Melhor assim, porque o dinheiro acaba e o prestígio segue para os meus descendentes.
E eis que eu estava em pleno sábado de carnaval na companhia de um prefeito recém eleito. Não sei porque a conversa subiu e desceu e caiu nesse tema. Ele falava do quão simples ele é e de que nada mudou na vida dele, mas a forma com que ele repetia isso me intrigou, parecia que ele queria dizer para si. Isso no intervalo entre um cumprimento e outro, é impressionante o assédio e o acesso que o poder dá. Aí eu achei que cabia e trouxe a reflexão da minha amiga chiquérrima Help para a prosa, querendo reforçar que bom que ele pensava assim. E foi impossível não notar a ponta de decepção no olhar dele quando eu disse que o poder vai passar, mas que o prestígio (caso ele seja merecedor de algum) vai ficar.
- Porque o poder é uma delícia não é? É tentador ter a caneta e sair mandando por aí. Mas daí até ser honesto e eficiente para alcançar o prestígio pelo trabalho realizado são outros quinhentos reais - eu disse para o homem. Ele balançou a cabeça afirmativamente lentamente e não disse nada, imagino que parou para pensar. Tem um provérbio que diz; "Quer conhecer um homem, dê poder a ele." Pensei em largar essa no prefeito também mas achei melhor não. Uma dose de cada vez, afinal era carnaval. E ziguiriguidum.
Mudei de assunto porque assunto é o que não me falta. Chique no último grau. Porque mais chique do que ter assunto só é quem tem prestígio. Ter os dois então, hummmmmm, o must!!!DEZ

05 fevereiro 2013

Era uma vez...


- ... E entrou pelo pé do pinto e saiu pelo pé do pato e quem quiser que conte mais quatro.

A minha mãe sempre terminava as histórias e os casos que contava para mim assim, me arrancando do estado de fantasia e me fazendo aterrissar rapidinho pois já era a hora de tomar a sopa, de dormir ou de ir fazer qualquer outra coisa. Ela diz que não me passou nenhum dos romances que leu na infância, para não me contagiar com o sonho romântico que tanto a atrapalhou.

E para quem me conhece há algum tempo já sabe, não adiantou muito. Sou uma quase uma Pollyana, ingênua, romântica e totalmente entregue a quem me oferece qualquer punhado carinho.

Não sei quantas histórias ouvi ou presenciei daqueles tempos para cá, mas uma coisa é certa, todas tiveram um final e se não tiveram ainda irão ter. Mas eu sempre me esqueço que existe final nas histórias. E até hoje, quando estou em um final que me deixa inebriada, nostálgica ou meio perdida eu ligo pra para ela, acho que é para ouvir da sua voz: "Aí entrou pelo pé do pinto..." Ela não fala mais essa parlenda mas é como se eu a ouvisse. A minha mãe sempre me surpreende mesmo que seja com a mesma mensagem, ela sempre me faz acreditar em mim e nas alegrias que virão com a próxima história, a minha mãe sempre me faz acreditar no futuro.

Hoje também orei e ao abrir a Bíblia da minha avó, o meu oráculo, estava lá: Eclesiastes 3:1-2: Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: Há tempo de nascer, e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou... Primeiro fiquei triste pois esse texto me faz lembrar a morte de pessoas queridas, ele sempre está presente em cartões de velório e em santinhos de missa. Só que a morte para o cristão é apenas um estágio para o renascimento e eu preciso entender o real significado dessa passagem bíblica assim como para a morte e também para os finais das histórias.

Na semana passada estive na casa de uma amiga que tem a sorte de ser amiga do Gilberto Gil. Ela se separou após trinta anos de casamento e foi desabafar com o seu sábio e talentoso amigo. E já chegou para ele assim:

- Pois é Gil, eu e o Arnaldo não demos certo...
- Hein? - ele interrompeu - (Ai, eu daria tudo para ver a cara do "hein" dele, com as sombrancelhas levantadas) - Como assim não deu certo? Vocês viveram juntos por trinta anos!!! Então deu certo por trinta anos! Quem disse que é para sempre?

Ai, como eu sou fã do Gil. Como eu sou fã das pessoas que entendem claramente isso, que tudo tem seu tempo, que depois que entra pelo pé do pinto vem outras quatro e que nada é para sempre.

Mas para quem adora o final dos contos de fadas o fechamento das histórias da vida sempre trazem decepções. O clássico "E foram felizes para sempre......" (assim, com reticências a perder de vista) pode parecer seguro e confortável, pode ser mais bonito e nos deixar na emoção da melhor parte da história por mais tempo, ignorando os pontos finais, mas é uma ilusão. Doce, mas é só faz de conta.

A gente decide; pode viver os sonhos e as frustrações quando os ciclos se fecham ou adotar a versão de mainha, embalada pela filosofia de Gil e tão bem descrita no livro de Eclesiastes.

Tentemos então:

"... E então a mulher que há muito tempo não era mais uma menina, não parava de olhar as ondas irem e virem. Até que levantou-se do banco, respirou fundo e olhou para frente. Começou a andar bem devagar prestando atenção para não tropeçar nas pequenas pedras do passeio. Passou pelo vendedor de caldo de cana, percebeu que as pessoas não podem dar o que não tem. Olhou para o mar de novo e entendeu que o amor transcende, muda de forma, pode ir e voltar sem a nossa autorização. Olhou para os pássaros voando em direção ao sol e sentiu que é possível amar de outro jeito, ou em outro tempo, o importante é não deixar de amar nunca. Passou por um menino tentando se equilibrar na bicicleta e viu que o amor nos enobrece, nos faz querer ser melhor, tentar e aprender. Nos faz ceder, vencer nosso orgulho e vaidade. Nos permite descobrir potenciais que não enxergávamos antes e às vezes nos absorve de tal forma que nos faz esquecer de todos os nossos potenciais para viver só o amor. Viu duas meninas correndo e se lembrou que o amor nos faz rir sem medida e nos faz chorar muito também. Viu o corredor muito veloz e suado e se lembrou que o amor pode ser uma aventura radical apenas para os que tem coragem. Ou pode ser mais calmo, que bom, pensou, enquanto um cãozinho parou para cheirar o seu pé. E ao passar por uma mãe sentada balançando um carrinho para o filho dormir, ela sorriu bem de leve enquanto entendeu que todo amor vale a pena ser vivido, que amar é um privilegio e agradeceu por esta grande oportunidade que a vida nos dá a todo instante, todos os dias."

E entrou pelo pé do pinto, saiu pelo pé do pato...




PS: Feliz ano novo, estava com saudade! :)

12 novembro 2012

A grandeza



Fiz do dia 10.11.12 um dia muito especial. Participei da técnica das Constelações Familiares, que segundo a Wikipédia, é um método psicoterapêutico recente, com abordagem sistêmica fenomenológica, de fundo filosófico, desenvolvido pelo filósofo e psicoterapeuta alemão Bert Hellinger. Em um conceito IF, é uma técnica de grupo que busca uma organização interna para o alcance de determinado objetivo através de um re-alinhamento da posição de cada um diante da sua família, considerando que cada membro da mesma (inclusive os mortos) tem uma representação em um "campo" que está abaixo da linha consciente, que interfere diretamente na nossa maneira de ver o mundo e de se relacionar. Para isso a facilitadora, no meu caso a argentina Claudia Boatti, discípula direta do Bert, primeiro avalia o seu objetivo e depois convida os outros participantes do grupo para representarem os membros da família que estão envolvidos no contexto. Ao constelar temos a chance de perceber de forma distanciada (fora da cena) as nossas posições e principalmente, a considerar verdadeiramente as posições dos outros, em um entendimento amplo das razões de cada um.

Foi maravilhoso. Tanto constelar como ser representante, a gente acaba constelando também. E ela tocou em um tema muito especial para mim neste momento, como tudo que acontece em sua hora certa. Falou sobre a grandeza. Para mim já valeria o curso, pois a minha miopia para enxergar a minha grandeza é grave. Por um lado, e os que já me conhecem há algum tempo já sabem, tenho a enorme dificuldade em acreditar que posso escrever um livro, volta e meia eu me acho aquém. Por outro, venho de uma sequência de mulheres orgulhosas e vaidosas que dificilmente acham que os homens são suficientemente bons para elas e isso tem me atrapalhado muito. Sim, é fantástico ter uma mãe que te acha Íncrível. E cá pra nós, qual não acha? Isso nos faz sentir confiantes e especiais, ótimo. Mas este "se achar" precisa de uma medida e a falta dela já estava me deixando levar por água abaixo mais um relacionamento importante. Atenção mamães! (inclusive eu, lógico)

No final do trabalho a Claudia nos presenteou com esse texto que me disse muito, espero que também traga algo para vocês:

A  G R A N D E Z A 

Grande é apenas aquele que se sente igual aos outros, dado que o que temos de maior é aquilo que compartilhamos com as outras pessoas. Aquele que sente isso grande em seu interior e o reconhece, se sabe grande e, ao mesmo tempo, se sente unido com as demais pessoas. Se o reconhece em seu interior, o reconhece ao mesmo tempo em todas as demais pessoas e sabe e sente igual a elas. Por isso também pode admitir sem inibições essa grandeza em si mesmo, já que não o eleva acima dos outros, os coloca lado a lado. Dessa maneira confirma aos demais a grandeza deles, e eles confirmam a grandeza dele. Assim, essa grandeza une todas as pessoas em humildade e amor. 

Aquele que se eleva acima dos outros, perde a conexão com eles. Retira-se deles e eles se retiram dele. Por essa razão esse envaidecimento conduz à solidão. E faz que se desconfie. Aquele que se enaltece deve temer que os demais o rejeitem, que secretamente estejam à espera que ele caia das alturas arrogantes até voltar a ser igual a eles. Sim, secretamente ele mesmo espera sua queda, porque sua alma não agüenta esse enaltecimento ao longo do tempo. Finalmente comete erros que para aqueles que estão de fora parecem incompreensíveis, mas que estão em sintonia com sua alma. Não agüentamos durante muito tempo a grandeza que se eleva acima dos demais. As outras pessoas tampouco a agüentam muito tempo. 

Mas também aquele que se rebaixa e se coloca abaixo das demais pessoas perde a conexão com elas. Elas percebem a exigência nesse tipo de humildade e a negação de fazer o que é adequado para a grandeza humana.

A verdadeira grandeza é exigente, mas de uma maneira que faz bem. Porque assim como reconhece aos outros, também pretende esse reconhecimento por parte deles. Essa exigência beneficia a todos. Une ali as grandes ações onde a exigência enaltecida ou a exigência que nega separam. 

Não obstante, parte da grandeza é também que eu reconheça em mim o singular que me foi presenteado, e que ao mesmo tempo reconheça em cada uma das demais pessoas o que é singular nelas. Por esse motivo, o singular também é algo que todas as têm em comum, e une em sugar de separar. Porque também o singular está a serviço do todo. Por isso, inclusive onde parece diferente, no todo, essa singularidade é igual a cada uma das outras singularidades. 

Bert Hellinger


Fechei o dia especial com uma conversa de quatro horas com meu quase ex talvez futuro possivelmente atual namorado. Isso porque eu liguei, eu venci o orgulho, eu peguei em sua mão. Reconheci tudo isso que compartilho com vocês agora. Ignorei completamente os princípios das minhas ancestrais e isso sim, me deixou muito orgulhosa. Não importa se estava certa ou errada, eu fiz o que quis. E será que existe certo e errado no amor? Segui o coração livremente ao me lembrar que essa vida é muito curta para ficarmos amarrados a conceitos, a padrões e às expectativas dos outros. 

O trabalho de constelações nos convida a quebrar padrões negativos, a repensar crenças e mágoas, a entender as razões dos outros e a corrigir distorções. E eu quero tudo isso aí, eu quero crescer. Crescer contando com a minha grandeza do tamanho certo, enorme em possibilidades e potencial e também limitada à condição humana e ao reconhecimento da grandeza do outro. Colocar-me lado a lado com o meu parceiro, aproveitando a soma das duas grandezas e a multiplicação dos potenciais. 

Eu chego lá, quem duvida?? kkkkk..... Pois sim, e aqui vou eu na minha missão de viajar, aprender e levar vocês comigo. Mesmo que seja viajar para dentro, rs. Não deu nem pra incluir, mas assisti neste mesmo dia a maravilhosa peça "A alma imoral" da Calrice Niskier basada no livro com o mesmo nome do Nilton Bonder. Sobre ela eu falo depois, é muita informação, vou precisar de um mês para digerir tudo. Tenham todos uma ótima semana, meus grandiosos amigos parceiros queridos. Até! :)


01 novembro 2012

O caminho é o mestre


Se tem algo que me deixa feliz e esperançosa com a vida é perceber as setas da equipe lá de cima e a sincronia das pessoas aqui na terra que vibram na nossa frequência para o bem. Basta estar atento(a) aos sinais e pedir apoio a quem nos estima, que a força de qualquer desejo se potencializa.
O Cau Trigo é um amigo peregrino que muito me ensina sobre os índios, os símbolos e as vozes da natureza, o Xamanismo, o calendário Maia e várias outras coisas. Há uns dois meses ele me procurou para me mostrar algo. Quando o vi, abri um grande sorriso ao vê-lo chamar meu nome com muito entusiasmo e os braços abertos. Achei a sua forma especialmente interessante naquele dia. Tinha deixado o cabelo e a barba crescerem, vestia colete e calças com bolsos cheios de papéis. Carregava uma mochila cheia, uma sacola e um guarda-chuva destes enormes que não dobram.
Depois de um abraço de verdade, fomos até a livraria. Lembro-me que pedi um cartão de visita para poder divulgar o trabalho dele como terapeuta e ele não tinha. Achei graça, como não ter um cartão de visitas no meio desta papelada toda? Mas este é o meu querido amigo Cau. Daí, com muita satisfação, dizendo as palavras perfeitas em um tom muito doce, ele anunciou: - Val, é com imensa alegria que quero te mostrar o meu livro. - Uau! Que ótimo Cau, que prazer! - E eu nem sabia que ele estava escrevendo um. Não pude evitar a comparação comigo, que não conseguia sair do lugar com o meu.
Então, ele pegou a mochilona, abriu-a e tirou um envelope de dentro. Imediatamente abri o envelope procurando o material, pensando que deveria ser muito fino pois estava bem leve. - Não Val, o livro tá aí! - Onde? - Falei sacudindo o papel e olhando ao meu redor.- Está escrito no envelope. Tratava-se de uma lista de tópicos escritos a caneta no envelope todo amassado. - Aí estão os 20 capítulos do meu livro, o número dos cavaleiros, que representa a totalidade da lenda maia. - Sei. E eu posso ler um? – perguntei. - Ah, eu ainda não digitei. Está tudo aqui na minha mente e nos escritos que fiz ao longo dos anos. Cada capítulo revela uma experiência transformadora para mim. Vou começar a digitá-lo, pretendo publicar o livro em novembro.

Eu que me considero uma Incrível insegura superexigente, captei atentamente aquilo, para pensar depois se seria uma loucura ou um ensinamento.
Resposta b, soube esta semana. O homem terminou o livro. Já registrou e encomendou para a editora, estará pronto em quinze dias, tinindo pra virar presente de Natal. E achei isso fantástico. Virou meu novo símbolo de coragem. Estava enrolando o ano todo, sem acreditar, procurando encontrar algo genial primeiro; daí, me aparece esse rapaz e diz: - Val, se você tem uma informação para compartilhar e não o faz, você está sonegando para o universo, está impedindo algo que precisa se manifestar. Não podemos deter o movimento do mundo que está em constante aceleração, o seu livro está pronto, assim como o meu!
- Hã? Como assim?? Que vergonha. Que pretensiosa eu sou. O cara não tinha nem uma linha digitada e eu tenho uns duzentos textos. Desde então, tudo se iluminou.
"As palavras que vêm das mentes constroem muros e as que vêm do coração constroem pontes." Assim ele terminou de me colocar no lugar, citando um provérbio eslavo. O lugar de uma aprendiz que também quer compartilhar o que a transformou em seu caminho de peregrina. Assim como estou fazendo agora. Nada mais. Nada demais. Só abrindo o coração.