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01 agosto 2014

A eu que não sabia com ele em NY


Já fazia 16 anos que eu não vinha a New York, só passando por aqui em escalas ou em sonhos. Na primeira vez eu vim em minha lua de mel oficialíssima, aquela de depois do casamento em que a gente se veste de noiva, com o primeiro marido. Foi em março mas estava absurdamente frio. Lembro de sair com ele do hotel pra ir ao Rockefeller Center que estava há três quadras, mas não aguentar ficar na rua e voltar correndo pra calefação do hotel. Isso até me parece uma coisa boa de se fazer quando se está em lua de mel, mas fiquei imaginando como seria fazer essa viagem com ele agora.
Primeiro levaria a mala certa. Aqui estamos vivendo dias coloridos de verão mas eu já tenho roupa pra até rolar na neve se for preciso.
Naquela viagem eu só o seguia. Não confiava em mim direito nem pra pedir um chocolate quente em inglês. Ficava rodando o mapa em minhas mãos, tentando ser uma boa copilota. Olhava para as lojas e não tinha a menor ideia de em qual entrar. No restaurante pedia o prato apontando para o cardápio e dava cada zebra, quando eu acertava eu ficava feliz pra caramba.
Não sabia. Desde a imigração ate a alfândega, eu não sabia viajar. Muito, mas muito menos do que a nossa filha caçula que agora está com onze anos.
Fiquei pensando, num impulso orgulhoso, que eu queria ser esta mulher que sou hoje na nossa lua de mel. Pra poder ajudar, pra ter a sua admiração assim como ele tinha a minha. 
Depois eu pensei na graça, na suavidade, na ingenuidade, nas mãos dadas também por medo de me perder. Foi com aquela que ele se casou. Lembrei do sorriso dele cada vez que me pegava aflita, da alegria que sentia ao tomar um daqueles cafés gelados que estão em cada esquina, do seu abraço na hora do vento gelado. 
Senti muita saudade. Chegou a apertar o peito quando finalmente cheguei ao Rockefeller Center com os nossos filhos já adolescentes. Saudade dele, da eu que não sabia, do casal que éramos nas ruas frias de New York.


04 maio 2014

A casa que morou em mim


Estou prestes a entregar uma casa que aluguei perto de uma mata. Começo a me despedir dos pássaros, dos besouros, das formigas e dos mosquitos que cheios de razão nunca se conformaram com todas essas construções na área deles. Aproveito esta fase final pra fazer uma super faxina, separar um monte de coisas pra dar e pra jogar fora, procurando, ao mesmo tempo, fazer aquela faxina interna.
Nesta noite de sábado choveu. Parei pra olhar a chuva e pra agradecer pelo tempo que me foi permitido viver aqui. Pela fase de recolhimento, por todas as noites de sábado em que era melhor estar aqui do que estar na rua, pelo silêncio, pela distância da casa pro centro da cidade, por todos os dias que vivi neste quarto e por tudo o que nele li, escrevi, orei e cresci.
Aproveitei que já era tarde e saí com a minha camisola velha de algodão na sacada. Vi o vento levar a chuva pra todos os lados sob a luz dos postes e com ela dançar uma dança meio melancólica. Pensei na serenata que um dia sonhei em ter ali mas que nunca veio. Em alguns amigos que gostaria de ter recebido mas que não vieram também. Depois me lembrei de todos os que vieram, de como foi bom, das suas vozes alegres que ecoavam com o som da água que caía sem parar no chão.
De repente subiu o cheiro conhecido da chuva e da terra. Lembrei-me que é a água que faz tudo florescer. Que ela limpa também o ar e deixa os dias muito mais bonitos. Que venha uma época de novos horizontes e novos desafios. Eu e a minha inquietude temos uma relação de tapas e beijos, mas de muito mais satisfação do que tudo. Ao mesmo tempo que detesto a inquietação que me tira o sono e não me deixa ver a chuva simplesmente pra ver a chuva, adoro a forma com que ela me empurra. Todas as vezes que chego no novo me sinto incrivelmente orgulhosa por ter tido a coragem de mudar.
Ao embalar os meus objetos e as minhas memórias, vejo que saio desta casa com excesso de bagagem. Mais coisas, pela oferta temporária de espaço, ah que ilusão, agora tenho que descartar um monte. Porém, principalmente, saio com mais experiências. Estas, por mais absurdo que pareça, são o que tenho de mais concreto, é o que levo pra onde for, até quando for preciso sair desta encarnação.
Levo as lembranças dos encontros, dos abraços e das risadas, as memórias das sopas de todos os dias com as crianças, levo os choros que me deixaram mais humana e mais forte, os sonhos que dormi e os que vivi, levo esse e outros textos que afloraram entre as cigarras e os sapos da mata.
É mais feliz quem sabe fechar os ciclos com gratidão e esperança. Isso é o mínimo que esta casa espera de mim depois de tudo que ela me ofereceu. Prometo então, quando a chuva e o outono passarem e eu estiver protegida por um outro teto, lembrar com muito carinho desta robusta senhora. Espero, com as mudanças das estações que estão por vir, com as mudanças de lugar e de situações, que eu saiba reciclar a mulher que eu já fui. Que eu me descarte, me acrescente, me embale e me transforme. Que ao entender que nada é pra sempre eu veja claramente que tudo é espetacular enquanto dura. É assim com o que a gente quiser, até com um momento solitário de chuva em uma noite de sábado em uma linda casa que foi totalmente minha por um tempo.



18 abril 2014

Por uma sexta da compaixão


A Páscoa me lembra a roça do meu pai,
O lugar onde eu tive a minha melhor formação.
Lá a sexta-feira da paixão era um dia muito especial.
Não se podia comer carne nem beber, não se montava a cavalo, não podia judiar dos bichos, não podia xingar e nem varrer a casa.
Quando a noite chegava, ela trazia a lua cheia e as histórias do lobisomem
Que pegava quem magoasse o resguardo do dia santo.
Fico imaginando se todos fossem católicos como os da roça na sexta da paixão
E tivessem um dia de paz, de peixe e de recolhimento,
Onde não pudéssemos ouvir histórias como essas que estão na TV,
De morte e de covardia.
- Shhhhhh!!!!! Menino, sossega! Em dia de hoje não pode falar dessas coisas. Ninguém briga, ninguém bate, não pode ser ruim não! Se não vira mula sem cabeça!!!
É dia de jejuar e de lembrar do Cristo
Que morreu por nós a dizer que éramos filhos do mesmo Pai.
O Jesus Cristo, lembra?
Olho por todos os lados a procurar o meu povo da roça.
Onde foi parar o resguardo, a reverência, o lobisomem e a temeridade?
Deu lugar à mídia? É ela que nos assombra agora?
O pai não assombra, a justiça não assombra, o inferno não assombra mais.
Me tragam de volta a Páscoa de infância na roça!
Quero histórias de lobisomem e de assombração
E não essas do jornal.
Saudade de uma Páscoa de crianças espertas vivas
Que pedem a benção, colocando o joelho no chão, aos seus padrinhos.
Em que os pais e os primos, mesmo miseráveis, não matam seus filhos.
Não são ignorantes no amor.
Lá, no dia seguinte, tinha o sábado de Aleluia
Onde o susto maior era ver o boneco do Judas queimando.
Aquilo assustava.
O que dizer dos Judas de agora?
Saudade de domingo de Páscoa sem chocolate,
Só com a imagem de Anália virando os olhos e as mãos pro céu pra dizer que esse tinha sido o dia que Jesus tornou a viver.
Precisamos da comoção de Anália,
De sextas feiras da paixão,
De compaixão todos os dias,
Do renascimento de uma gente,
De resguardo.